Why Her?: aprender a viver depois do “por que eu?”
Esta resenha foi escrita em 2022.
Why Her? conta a história de Oh Soo Jae (Seo Hyun Jin), uma advogada de sucesso de um dos maiores escritórios de advocacia da Coreia do Sul. Um dia, ela é colocada como suspeita de incitar uma morte e, por conta disso, é transferida para trabalhar como professora na faculdade de direito. Lá, ela reencontra Gong Chan (Hwang In Yeop), um jovem calouro do curso de direito que possui lembranças vívidas de quando encontrou Soo Jae ao ser falsamente acusado de um crime. Assim, o drama vai abordar um enredo sobre vingança, escolhas, justiça e amor, a partir dos acontecimentos do passado e do presente que envolvem a história de Soo Jae.
Lembro claramente de quando peguei o primeiro episódio de Why Her? para assistir, a sensação mais latente foi causada pela personagem feminina principal, a Soo Jae simplesmente magnetiza quem está assistindo. A presença da protagonista puxa a atenção para a trama, assim, uma curiosidade imediata brotou em mim. Eu queria saber todas as nuances que a envolviam e todas as suas questões internas. Veja só, a Soo Jae não é uma personagem que amamos assim que a conhecemos, mas fica perceptível que ela possui muitas camadas.
Nos primeiros episódios, a impressão transmitida pela nossa protagonista feminina é a de uma pessoa fria, implacável, que é capaz de tudo para conseguir poder. Porém, gradualmente a trama apresenta um lado mais frágil da personagem, nos permitindo entender cada uma das dores que ela carrega dentro de si e porque escolheu trilhar um caminho em que os fins justificam os meios.
Com isso, a atuação esplêndida da Seo Hyun Jin contribui para que a complexidade da Soo Jae seja transmitida com maestria para o público, a atriz simplesmente agracia o telespectador com um verdadeiro show de atuação, principalmente nas diversas cenas sensíveis e emocionais que a obra apresenta. Mesmo carregando uma fachada fria, aos poucos é possível se afeiçoar com a protagonista, eu terminei o drama a amando absolutamente. Soo Jae é um exemplo de mulher forte e independente e da inserção desse tipo de representação feminina na produção audiovisual sul-coreana.
Costumo dizer que Why Her? só é Why Her? por conta da personagem feminina principal, todo o brilho e foco da narrativa está nela e por ela vale a pena assistir cada segundo do dorama. É satisfatório ver uma personagem inteligente pisando nos homens ruins da história. É triste pensar no quanto nossa protagonista teve que lutar para conseguir seu espaço em um meio machista e elitista e, principalmente, no quanto precisou reprimir sua fragilidade enquanto ser humano e seus empecilhos emocionais.

Logo, fica claro que o enredo do drama faz um ótimo trabalho de construção na trajetória da personagem feminina, nesse sentido o crescimento da Soo Jae é evidente, progressivamente ela vai entendendo que não há mal algum em mostrar suas fraquezas para aqueles que ama, está tudo bem falhar de vez em quando, ela aprende se libertar das amarras do passado, de suas dores e do desejo por poder, a ser forte mas não esquecer do seu próprio eu e de engendrar boas ações e justiça.
Resumidamente, a jornada da Soo Jae é de uma mulher que toma as rédeas da própria vida para si, não deixando ninguém decidir o caminho que ela deve trilhar. Libertação, amor próprio e resiliência são palavras que resumem bem o percurso da personagem.
Além disso, apesar de não ser o elemento central da trama, o romance com o Gong Chan inserido na narrativa é utilizado como um dos recursos que permitem conhecermos o lado mais emocional da Soo Jae, bem como um meio para execução de seu crescimento interno, logo, não teria como não comentar nesta resenha sobre o personagem e o envolvimento amoroso dos dois no drama.
Gong Chan é um garoto de bom coração, determinado, sincero e gentil, ele passou por muitas dores e injustiças em seu passado, mas, mesmo assim, conseguiu se reerguer e permanecer sendo uma boa pessoa. A faculdade de direito, para ele, é uma oportunidade que ele nunca pensou que seria possível, porém, procurar justiça sempre foi seu maior desejo.
Partindo de uma análise mais pessoal, eu realmente fiquei em dúvida sobre o que senti pelo Gong Chan na narrativa, nos dois primeiros episódios do drama ele me cativou com suas qualidades, no entanto, à medida que os episódios passavam fui perdendo o encanto inicial. Acredito que a roteirista tenha exagerado em algumas características do Gong Chan, como o aspecto protetor que ele tinha pela Soo Jae, assim, em muitos momentos, achei o personagem incisivo demais.
Na minha opinião se tornava desconexo, uma vez que, apesar de suas fragilidades, a Soo Jae não precisava de um garoto para ficar no pé dela sempre. Resumidamente, creio que o problema tenha sido a Soo Jae ser uma personagem independente e autossuficiente que conseguia resolver seus problemas sozinha e a roteirista não soube encaixar em muitas cenas o Gong Chan nisso, tornando ele um garoto um pouco irritante. Assim, eu me encontrei em um dilema, pois reconhecia a bondade do Gong Chan e suas qualidades, mas não gostava desses momentos.

E como era a dinâmica romântica entre Soo Jae e Gong Chan? Em termos gerais, os dois juntos são fofos e tiveram cenas lindinhas juntos. Gong Chan ama bastante a Soo Jae, então, sempre a colocava em primeiro lugar, respeitando todas as suas dores e confortando ela nos momentos difíceis, que foram vários. No entanto, a meu ver não foi uma linha de romance perfeitamente construída, o momento de turbulência na relação dos dois foi estendido um pouco demais.
Além disso, vou ser polêmica ao afirmar isso, mas acredito que a história poderia funcionar normalmente sem o romance, ele estava lá, era bem bonitinho, mas era a última coisa que eu me preocupava. Por mim, se ele existe ou não, é um verdadeiro significado de tanto faz.
Para se ter uma ideia, quando chega na reta final o próprio enredo esquece de oferecer um espaço equilibrado para o romance, muitas pessoas que assistiram o drama até o final, chegaram a me perguntar sobre o romance na reta final com dúvidas em relação a esse aspecto. No entanto, por mais que o romance seja deixado um pouco de lado na reta final, ele possui interessantes mensagens e simbologias na construção das cenas. E, pelo menos, Hwang In Yeop saiu da friendzone, não é? (Pera, isso é um spoiler? Kkk).
Contudo, o foco principal de Why Her? é mesmo as lutas de poder, jogos políticos, o direito e uma pitada de mistério. A trama de vingança e justiça do drama foi bem construída, ficamos com curiosidade para desvendar as podridões que cercam os personagens e o drama consegue realmente nos chocar com algumas reviravoltas inesperadas. Não há nada melhor do que torcer para Soo Jae derrubar seus inimigos e assistir os passos que ela engendra para isso. Quando chega na reta final a trama fica mais acelerada, dolorida e urgente.
Teve um aspecto nos episódios finais mais norteado para os acontecimentos da trama que achei sem necessidade ter ocorrido, mas, entendo um pouco a intenção da narrativa ao fazer isso, não vou mencionar detalhadamente por conta do spoiler. Em suma, em todo o drama é como se estivéssemos acompanhando um jogo de xadrez em que cada um dos lados arquiteta sua jogada, o clima de tensão é palpável, certamente você vai assistir raiva assistindo, mas o drama prende o telespectador. Não à toa os números de audiência de Why Her? foram bons na Coreia do Sul.

Para abordar os elementos que giram em torno da vingança, direito e jogos de poder, Why Her? recorre a utilização de muitos personagens secundários. Por exemplo, os alunos da faculdade de direito que trabalham na clínica jurídica com a Soo Jae, a amiga, a advogada secretária, os amigos do Gong Chan, o chefe da Soo Jae e os poderosos que o cercam.
E não posso esquecer do chatinho Choi Yoon Sang, interpretado pelo Bae In Hyuk, esse personagem é como se fosse aquele terceiro elemento dos triângulos amorosos, o problema é que o que ele sente é um amor unilateral pela Soo Jae, não tem nenhuma chance de acontecer e, sendo bem sincera, como sempre sou, até agora eu não entendi porque inseriram esse personagem no enredo, a não ser para embelezar KK (“ah, Brenda, ele contribui nisso, vamos ser sinceros, ele mais irrita do que contribuiu”).
Brincadeiras com fundo de verdade a parte, o Yoon Sang em muitos momentos testou minha paciência, o garoto era irritante, parecia que queria mandar na vida da Soo Jae, essa mulher é uma santa com tanto macho irritante ao redor dela. Logo, no tocante aos personagens secundários, alguns são bem utilizados, mas muitos não são.
Por fim, Why Her? possuir uma mensagem bonita, afinal, quantas vezes não nos questionamos “Por que isso está acontecendo comigo? Por que eu?”, a Soo Jae também faz esse questionamento aos prantos quando pela primeira vez as coisas começam a dar errado. Aprendemos que a resposta para essa questão não é fácil de ser obtida, não entendemos as coisas que acontecem conosco e o propósito de nossa trajetória é comum a maioria dos humanos.
O que Why Her? grita para nós, é que talvez o caminho que tenha escolhido para trilhar esteja errado, suas ações podem está machucando pessoas, seus valores podem estar invertidos, algumas coisas acontecem para fazer você repensar sua própria jornada.
Assim, tudo possui um propósito, para enxergá-lo, o melhor é deixar de se questionar “Por que eu?” e se abrir a experiências novas e boas, ao invés de se fixar em um só caminho já pensando logo no seu final, por que não desfrutar de seus dias? E se essa estrada que você está pegando não dá certo, não tem problema, vire na trilha oposta e curta cada momento dela. “Por que ela?” Porque tinha que ser.