The Great Flood: Quem somos quando a água leva tudo, menos o que sentimos

The Great Flood: Quem somos quando a água leva tudo, menos o que sentimos

O que resta de nós quando o mundo entra em colapso? O que permanece quando casas, cidades, memórias físicas e estruturas sociais são engolidas pela água? The Great Flood (A Grande Inundação) parte de um cenário apocalíptico para construir algo muito mais íntimo e doloroso, uma reflexão sobre a humanidade, sobre aquilo que nos define e, principalmente, sobre o que escolhemos preservar quando já não há garantias de futuro.

A narrativa acompanha a cientista de inteligência artificial Gu An Na (Kim Da Mi), que está presa em um prédio que, aos poucos, vai sendo tomado pela inundação. No entanto, o filme deixa claro desde cedo que o verdadeiro cerco não é apenas físico pois, enquanto a água sobe, o que realmente aperta é o confronto com escolhas, lembranças e vínculos. E, constantemente, paira sobre nós os questionamentos:“como sobreviver?”, e “vale a pena sobreviver de qualquer maneira?”.

Nessa trama, a inteligência artificial não surge como ameaça direta ou de forma amplamente exposta a primeiro modo, e tampouco como solução definitiva, ela é posta como um contraponto silencioso à fragilidade humana, é capaz de aprender, registrar e projetar futuros, e evidencia aquilo que lhe falta, sentir. The Great Flood mostra que a tecnologia pode guardar dados, mas não é capaz de carregar afetos. E sem afeto, qualquer futuro se torna vazio, como representado nos inúmeros loopings.

Dentro do prédio, cada pessoa que cruza o caminho da protagonista carrega um significado narrativo e emocional, não são encontros aleatórios, eles são fragmentos da humanidade em diferentes estados. Há aqueles que representam o apego ao passado, agarrados a objetos, memórias, rotinas ou crenças, como se isso pudesse impedir o fim. Enquanto outros simbolizam o egoísmo da sobrevivência a qualquer custo, dispostos a sacrificar o outro para garantir a própria continuidade, chegando a matar e saquear as casas em busca de  riqueza, mesmo em um cenário apocalíptico. Há também quem representa o cuidado, o gesto pequeno, quase invisível, mas profundamente humano, aquele tipo de atitude que não muda o destino do mundo, mas muda o de alguém.

Esses encontros funcionam como espelhos em que cada personagem revela uma possibilidade de escolha da protagonista, enquanto o filme insiste em perguntar o tempo todo sobre “quem você seria nesse cenário?”, seria aquele que se fecha? aquele que explora? ou aquele que, mesmo com tudo ruindo, ainda tenta cuidar? Nossa cientista transita por esses encontros como quem atravessa versões possíveis de si mesma, sendo obrigada a confrontar o que realmente importa.

Olhando para esse cenário apocalíptico de um mundo ruindo em uma grande inundação, a água subindo vem como símbolo, arquitetando toda a narrativa e simbolizando não apenas a destruição, e sim o esquecimento, purificação e transbordamento. Veja bem, o filme reflete sobre como a inundação apaga rastros, mas também desnuda emoções, pois quando tudo é levado, não há mais espaço para máscaras. O filme sugere que o verdadeiro desastre não é o climático, mas o emocional, um mundo que avançou tecnicamente, mas se esqueceu de nutrir seus vínculos.

Um grande ganho de The Great Flood é apostar no silêncio, na repetição e na sensação de ciclo, veja, há uma constante impressão de que o fim já começou há muito tempo, de que tudo aquilo que estão passando já aconteceu e essa escolha pode incomodar, mas é coerente, como construir esperança em um mundo que já perdeu sua capacidade de sentir coletivamente? O desconforto desse questionamento faz parte da experiência e reforça o tom introspectivo da obra, que nos faz questionar de tudo enquanto vemos uma busca por afeto através das escolhas.

Não posso deixar de mencionar a relação que está no centro de tudo nesta produção, que é a de An Na com seu filho, o pequeno Ja In (Kwon Eun Seong). É nela que o filme ancora sua emoção mais genuína e, em meio a decisões que podem definir o futuro da humanidade, é esse vínculo que está amarrado ao principal questionamento do longa, de que não existe salvação possível se ela não for atravessada pelo afeto. Sobreviver sem amor é apenas continuar existindo.

No teor técnico, a produção não deixa a desejar, como o esperado da junção de Kim Da Mi e Park Hae Soo, as atuações são ótimas, denotando medo, arrependimento, felicidade e até mesmo o pavor de suas perdas a cada nova versão de si. A construção da narrativa em si não achei que foi das melhores, senti que tiveram pontas as quais o roteirista, que também é o diretor da produção, poderia ter resolvido melhor, mas, ainda assim, deixo meu elogio a Kim Byung Woo por sua direção, em meio a um (literal) mar de sentimentos que chegava, consegui me conectar ao pavor dos personagens enquanto torcia para conseguirem ficar juntos. A fotografia também é um show a parte com o tom frio, focado no azul que também é uma cor para expressar sentimentos, as cenas da água subindo, eles sendo atingidos, o fogo, o pôr do sol, todas impecáveis, (só uma cena bem específica que eu não gostei tanto do uso daquele pontilhados laranjas, mas isso é um gosto bem pessoal meu).

No fim, The Great Flood não entrega respostas prontas, e encerra deixando inquietações e, principalmente nos deixa o questionamento de que, se conseguirmos salvar o amanhã, quem seremos nele? Que tipo de humanidade queremos carregar adiante? Talvez o filme não esteja interessado em prever o futuro, mas em nos lembrar que, antes que a água chegue, ainda há tempo de escolher quem somos e quem queremos por perto.

The Great Flood está disponível na Netflix.

Alice Rodrigues

Estudante de Comunicação social – Jornalismo, e atuando como social media, criadora de conteúdo digital e assessora de imprensa. Além de amar conhecer novas culturas, é viciada em ler e ouvir inúmeros podcast de assuntos variados. Dorameira desde de 2016, adora acompanhar e analisar narrativas e conteúdos que fazem parte da criação de um drama (elenco, filtros usados, fotografia, simbologia das cenas e outros).

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