The Early Spring: Quando o amor não cabe em certo e errado

The Early Spring: Quando o amor não cabe em certo e errado

Quando um relacionamento se torna tóxico, é realmente possível apontar quem está errado? Existe algo extremamente confortável na ideia de transformar uma relação problemática em uma história de vítima e culpado em The Early Spring, principalmente quando conseguimos identificar com facilidade as palavras cruéis, as atitudes questionáveis e os momentos em que um dos dois ultrapassa os limites. Seria mais simples colocar Luan Nian como o homem arrogante e controlador e Shang Zhitao como a mulher insegura que apenas tenta sobreviver àquele relacionamento, ou fazer exatamente o contrário e enxergar nela a responsável por esconder, mentir e manter o homem que ama à margem de sua própria vida. Mas e se nenhum dos dois ocupar completamente esses lugares? Até que ponto é possível falar em culpado quando duas pessoas chegam a um relacionamento carregando suas próprias inseguranças, incapacidade de comunicação e maneiras diferentes de lidar com a vulnerabilidade?

E é justamente partindo desta ideia que The Early Spring constrói uma das relações mais incômodas e, ao mesmo tempo, mais fascinantes que acompanhei em um drama chinês. Luan Nian/Luke (Jing Bo Ran) e Shang Zhitao/Flora (Sun Qian) não são um casal perfeito, tampouco personagens que podem ser facilmente divididos entre uma bandeira vermelha e uma vítima inocente. Eles erram, escondem coisas, dizem palavras que não deveriam, interpretam o outro a partir das próprias inseguranças e, em diversos momentos, conseguem transformar um problema pequeno em algo muito maior. Existe arrogância de um lado, insegurança do outro; existe controle, mas também existe silêncio; existe cobrança, mas também uma dificuldade enorme de se entregar completamente. E talvez seja justamente essa imperfeição que faça com que o relacionamento deles pareça tão humano e desfuncional, porque, no fim das contas, The Early Spring não parece interessado em perguntar simplesmente “quem está errado?”. A pergunta mais desconfortável talvez seja outra: o que acontece quando duas pessoas se amam, mas nenhuma delas sabe exatamente como deixar o outro entrar em sua vida?

É aí que, para mim, está a força da escrita. O roteiro não precisa de um vilão para fazer o relacionamento desmoronar. Não existe uma única pessoa responsável por cada ferida aberta entre eles. Há apenas duas pessoas que se apaixonaram carregando bagagens emocionais diferentes e que, conforme o relacionamento se aprofunda, fazem com que essas fragilidades venham à tona. Luan Nian tenta controlar aquilo que sente porque não sabe lidar com a vulnerabilidade que o amor exige. Shang Zhitao, por sua vez, tenta preservar o controle sobre a própria vida mantendo justamente a pessoa que ama fora de determinadas partes dela. Ele fala quando deveria silenciar; ela silencia quando deveria falar. Ele tenta se aproximar através de ações que ela nem sempre consegue compreender; ela esconde aquilo que mais precisava compartilhar com ele. E, pouco a pouco, os dois vão construindo uma distância dentro de um relacionamento que deveria justamente servir para aproximá-los.

Luan Nian é um homem extremamente competente, sofisticado, direto e acostumado a estar no controle. Como diretor de marketing, ele é estratégico, observador e confiante em suas próprias decisões. Existe nele uma necessidade quase constante de organizar aquilo que está ao seu redor, e talvez seja justamente por isso que o amor por Shang Zhitao seja tão desconcertante. Ela é uma variável que ele não consegue calcular. Ele pode controlar uma reunião, uma negociação, uma equipe ou uma estratégia, mas não consegue controlar o que sente quando ela está perto, e gosto muito de como o drama brinca com essa contradição, porque, embora Luan Nian tente parecer emocionalmente distante, suas ações frequentemente entregam aquilo que suas palavras tentam esconder.

Ele é arrogante? Sim! É mesquinho? Também, e algumas vezes é cruel e tem uma maneira péssima de se comunicar quando está irritado. Existem momentos em que simplesmente ficar em silêncio teria poupado os dois de metade dos problemas que enfrentam, como falei durante todo o processo deu assistindo o drama: “calado, ele é um poeta”. No entanto, reduzi-lo a um homem tóxico que utiliza sua posição para controlar a protagonista seria ignorar boa parte do que o roteiro constrói, visto que Luan Nian demonstra afeto (uma linguagem de amor diferente, com atos de serviço e presente, palavra de afeto não é seu forte), tenta estar presente, oferece ajuda, apresenta Zhitao às pessoas importantes de sua vida e, principalmente, tenta incluí-la em um espaço que ela insiste em manter separado do restante de sua existência. Ele quer mais do que os encontros escondidos entre quatro paredes, mesmo quando não sabe expressar isso da maneira mais saudável.

Talvez a maior fragilidade de Luan Nian esteja justamente naquilo que ele acredita ser sua maior qualidade: o controle. Ele acha que consegue administrar os próprios sentimentos, porém se apaixona por uma mulher que coloca esse sistema inteiro em desordem. A pergunta “Você consegue controlar seus sentimentos de amor?” acaba funcionando quase como uma provocação para si mesmo. Ele acredita que consegue controlar o que sente por ela, quando, na realidade, já perdeu esse controle muito antes de admitir que estava apaixonado.

Dentro desse interim, é difícil falar do Luan Nian sem nem falar do Jing Bo Ran, porque o ator conseguiu transformar um personagem que poderia facilmente cair no estereótipo do CEO frio (e odiado) em alguém muito mais complexo. Seu olhar muda completamente dependendo da pessoa que está diante dele, e é especialmente interessante perceber a diferença entre o Luan Nian profissional, que parece sempre ter uma resposta pronta, e aquele que está diante de Zhitao e simplesmente não sabe o que fazer com aquilo que sente. As cenas em que ele finalmente deixa as barreiras caírem estão entre as melhores da produção (ele chorando foi tudoooo), justamente porque o personagem passou tanto tempo tentando parecer inabalável que qualquer pequena demonstração de vulnerabilidade ganha um peso enorme.

Shang Zhitao, por outro lado, é uma personagem que mei divide opiniões. Ela aparece inicialmente como uma recém-formada que ainda não acredita completamente na própria capacidade, mas que possui determinação suficiente para continuar tentando mesmo depois de ouvir de Luan Nian que não seria adequada para aquele trabalho. E gosto da construção dessa trajetória profissional porque ela não transforma sua evolução em algo instantâneo. Ela erra, aprende, insiste, ganha experiência e, aos poucos, conquista seu espaço por mérito próprio.

A carreira talvez seja justamente o lugar em que Zhitao consegue demonstrar aquilo que não consegue fazer dentro do relacionamento. No trabalho, ela aprende a se impor. Ela enfrenta situações difíceis, busca soluções e constrói uma identidade profissional que não depende de Luan Nian. É bonito vê-la deixar de ser aquela jovem insegura que chega à empresa e se transformar em uma mulher que sabe o que quer profissionalmente. O problema é que essa mesma mulher que aprende a lutar por sua independência continua extremamente fechada quando o assunto é o homem que ama, e é aqui que Shang Zhitao mais me frustra.

Consigo compreender sua necessidade de proteger a própria carreira. Consigo compreender que ela não queira ser vista como alguém que conseguiu uma oportunidade apenas por estar se relacionando com o chefe. Consigo compreender até mesmo que tenha medo de misturar trabalho e vida pessoal. O que me custa mais é perceber que, depois de tantos anos, ela ainda não encontra espaço para realmente incluir Luan Nian em sua vida. Eles estão juntos, mas ele permanece separado de partes importantes da existência dela. Seus amigos são sua família, mas ele continua sendo apenas o namorado secreto. Ela não o apresenta ao ex, não compartilha acontecimentos importantes, esconde problemas que poderiam ser enfrentados juntos e, em diversos momentos, prefere mentir a simplesmente conversar. Mas isso não significa que ela não o ame. Para mim, é justamente o contrário. Ela ama, mas não sabe se entregar.

A frase “Por mais que eu desejasse amor, ainda lutava contra a realidade” resume muito do que vejo em Zhitao. Ela deseja aquele relacionamento, mas existe uma resistência constante em permitir que ele ocupe um espaço maior em sua vida. E talvez seja por isso que algumas de suas atitudes incomodem tanto. Quando Luan Nian questiona a distância entre eles, ele não está necessariamente dizendo que ela deveria abandonar sua independência ou deixar de ter uma vida própria. Ele está tentando entender por que, depois de tantos anos, continua sentindo que existe uma parte dela à qual nunca teve acesso.

E é nesse ponto que senti que o drama se torna especialmente indtigante, porque a insegurança da Taotao não aparece apenas na carreira ou na relação com Luan Nian. Ela também aparece na maneira como interpreta os gestos dele. Ele oferece, ela recusa. Ele tenta ajudar, ela esconde o problema. Ele se aproxima, ela recua. E quando finalmente percebe que pode perdê-lo, muitas vezes espera que ele compreenda aquilo que ela nunca conseguiu dizer.

O relacionamento deles, portanto, não começa como uma história convencional de amor. Existe atração, desejo e curiosidade, mas também existe uma tentativa de estabelecer regras para algo que, por natureza, não parecem obedecê-las. Luan Nian quer um relacionamento, mas não quer as complicações emocionais que vêm com ele. Zhitao quer estar com ele, mas não quer que o relacionamento determine sua trajetória profissional. Os dois acham que conseguem separar as coisas, só que não conseguem e, talvez, seja por isso que a intimidade entre eles funcione tão bem dentro da narrativa. Não estou falando apenas das cenas físicas, mas da maneira como o drama utiliza a proximidade para mostrar aquilo que eles ainda não conseguem colocar em palavras. Existe uma diferença muito grande entre os momentos em que eles estão fisicamente próximos e aqueles em que realmente conseguem se enxergar. O primeiro vem com facilidade; o segundo exige amadurecimento.

Logo, acho fascinante que o drama não trate a intimidade como prova suficiente de amor, visto que eles podem se desejar, podem sentir falta um do outro e podem ser incapazes de permanecer afastados, mas isso não significa que saibam construir uma relação. Amar é uma coisa, saber estar em um relacionamento é outra. E esse tamém é um dos maiores temas de The Early Spring.

Durante seis anos, eles permanecem presos nessa contradição, é muito tempo para duas pessoas que supostamente se amam continuarem sem resolver questões tão básicas. Zhitao não dorme na casa dele, não se muda para sua vida, mantém distância dos amigos que considera sua família e guarda informações importantes para si. Luan Nian, por sua vez, reage às frustrações tentando recuperar o controle e dizendo coisas que machucam. Ele quer proximidade, mas muitas vezes exige essa proximidade da maneira errada. Ela quer segurança, mas constrói essa segurança através da distância. É quase como se os dois estivessem falando idiomas diferentes dentro do mesmo relacionamento.

Luan Nian demonstra amor através de presença, ações, proteção e tentativa de inclusão. Zhitao parece precisar de segurança, autonomia e espaço para conseguir se entregar. O problema é que nenhum dos dois entende completamente a linguagem do outro. E quando não conseguimos compreender a maneira como alguém demonstra amor, começamos a interpretar suas ações a partir das nossas próprias feridas. Logo, não consigo enxergar o término deles apenas como consequência só das atitudes de Luan Nian (mas ele tem responsabilidade, sem dúvida). Há comportamentos dele que ultrapassam limites e palavras que poderiam ter sido evitadas, mas Zhitao também constrói, durante anos, uma relação em que ele não consegue saber o que realmente acontece em sua vida. O episódio envolvendo Dony é um exemplo claro disso, assim como a morte do amigo. São situações grandes demais para serem escondidas de alguém com quem você divide seis anos de vida.

Existe uma ironia particularmente dolorosa quando Zhitao afirma que, se a outra pessoa não confia em você, nada do que disser vai importar. Porque ela também nunca ofereceu a Luan Nian todas as informações necessárias para que ele pudesse confiar nela completamente. Ela exige confiança enquanto esconde coisas, ele exige transparência enquanto reage mal quando finalmente descobre. E assim o ciclo continua.

Talvez seja por isso que a discussão sobre quem é mais tóxico seja tão pouco interessante para mim. Luan Nian e Shang Zhitao são tóxicos de maneiras diferentes, ele pode ser controlador e verbalmente agressivo, ela pode ser omissa, passiva e extremamente fechada. Ele tenta puxá-la para perto, ela cria barreiras. Ela quer que ele compreenda suas inseguranças, ele quer que ela simplesmente diga o que está acontecendo. Nenhum dos dois consegue fazer exatamente aquilo que o outro precisa. Isso também faz com que o reencontro seja tão importante, não porque o amor tenha magicamente resolvido os problemas que existiam antes, mas porque, depois de tudo o que aconteceu, eles finalmente parecem compreender que voltar não significa simplesmente retomar o relacionamento de onde pararam. É preciso construir outro. Um relacionamento em que Luan Nian já não precise transformar seus sentimentos em uma tentativa de controle e em que Shang Zhitao não precise esconder partes de si para preservar a própria liberdade.

E gosto especialmente de pensar no título nesse momento, “The Early Spring” é o início da primavera, aquele período em que o inverno ainda não desapareceu completamente, mas já existem sinais de que algo está começando a florescer. Não é a primavera em seu auge, é apenas o começo. E talvez seja exatamente isso que a história deles represente, eles não terminam a jornada como duas pessoas perfeitas, completamente curadas de suas inseguranças e prontas para viver um relacionamento sem conflitos. Eles simplesmente chegam a um ponto em que finalmente estão dispostos a tentar de uma maneira diferente.

A máquina de escrever de Luan Nian sempre me pareceu uma das melhores metáforas da história. Ele passou boa parte da vida acreditando que tudo precisava funcionar de maneira precisa, no ritmo certo, sob seu controle. Mas basta uma tecla faltar para que aquilo que parecia perfeito deixe de funcionar como antes. E talvez o que faltasse não fosse uma peça qualquer, mas justamente aquilo que ele passou tanto tempo tentando manter distante: a capacidade de aceitar que algumas coisas não podem ser controladas. O amor é uma delas.

No fim, a pergunta que fica para mim não é se Luan Nian ou Shang Zhitao era o mais tóxico, quem errou mais ou quem deveria ter pedido desculpas primeiro. Essas perguntas podem render discussões intermináveis, e talvez esse seja justamente um dos méritos do drama. A pergunta que permanece é muito mais difícil: se duas pessoas se amam, mas precisam perder uma à outra para finalmente aprender a se enxergar, será que a separação também pode fazer parte da história de amor? Talvez possa, porque algumas pessoas não precisam apenas aprender a amar, precisam primeiro aprender a deixar que alguém as ame.

E foi isso que, o que mais gostei em The Early Spring, ele não me entregou um casal perfeito, nem tentou convencer que o amor seria suficiente para apagar todos os erros cometidos ao longo do caminho. Entregou duas pessoas que se machucaram, que fizeram escolhas ruins, que disseram coisas que não deveriam e que, ainda assim, continuaram encontrando uma na outra algo que não conseguiram abandonar completamente. O amor deles não foi bonito porque era fácil; foi bonito porque, depois de atravessar o inverno, eles finalmente entenderam que amar também significa abrir espaço para o outro existir ao seu lado.

Talvez o verdadeiro início da primavera não aconteça quando o inverno termina, mas quando finalmente percebemos que não precisamos mais nos proteger dele. Luan Nian e Shang Zhitao passaram anos tentando descobrir se era possível controlar aquilo que sentiam. No fim, talvez a resposta que o drama trouxe sempre tenha sido a mesma: não podemos controlar o amor, mas podemos escolher o que fazemos com ele. E, depois de tudo, eles finalmente escolheram um ao outro e só eles podem definir de foi uma escolha boa ou má (dito isso, para mim foi uma escolha ruim, queria eles separados no final…).

The Early Spring está disponível na YOUKU e na Netflix!

Alice Rodrigues

Graduada em Comunicação social – Jornalismo, e atuando como social media, criadora de conteúdo digital e assessora de imprensa. Além de amar conhecer novas culturas, é viciada em ler e ouvir inúmeros podcast de assuntos variados. Dorameira desde de 2016, adora acompanhar e analisar narrativas e conteúdos que fazem parte da criação de um drama (elenco, filtros usados, fotografia, simbologia das cenas e outros).

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