Long Vacation: o tempo de deixar a vida acontecer
“Por que você não pensa assim? São… férias longas. Não precisa se matar correndo o tempo todo. Às vezes, não dá certo, não importa o que faça. Nada do que você faz funciona. Sabe? Nessas horas… Como eu digo? Pode parecer estranho, mas pensa que Deus está te dando umas férias. Não se apressa. Não entra em pânico. Não força mais ainda. Só deixa as coisas seguirem.”
— E depois?
“Vai melhorar.”
Sena (Kimura Takuya) é formado em música e sonha em se tornar um pianista profissional, mas, sem conseguir encontrar oportunidades para seguir carreira, acaba dando aulas de piano em uma escola local. Minami (Yamaguchi Tomoko) é uma modelo desempregada que, no dia do próprio casamento, é abandonada pelo noivo, que foge da cidade levando todas as suas economias. Ao tentar encontrá-lo, ela descobre que ele é justamente colega de apartamento de Sena. Sem dinheiro e sem ter para onde ir, Minami acaba se mudando para o apartamento e ocupando o quarto que era do ex-noivo. Assim, duas pessoas que estão passando por momentos complicados na vida acabam dividindo não apenas um apartamento, mas também suas inseguranças, frustrações e uma longa fase de incertezas.
É um jdrama de 1996 e, até agora, o mais antigo que já assisti. E acho que grande parte do charme dele, para mim, está justamente nisso. Assistir a uma história dessa época é perceber o quanto a forma de viver e se relacionar mudou. Não temos celulares, internet, mensagens instantâneas ou redes sociais para acompanhar a vida dos outros e resolver tudo em poucos segundos. Se alguém precisa falar com outra pessoa, é preciso ligar ou aparecer. Se alguém desaparece, você realmente fica sem saber onde aquela pessoa está. E isso faz com que os encontros, as ligações e até os momentos de espera tenham outro peso dentro da narrativa.
Foi uma das coisas que mais me fez pensar sobre a passagem do tempo. Hoje estamos tão acostumados a ter acesso imediato às pessoas que é estranho assistir a personagens simplesmente esperando uma ligação ou precisando atravessar a cidade para conversar com alguém. Existe uma lentidão nesse drama que, para mim, não é necessariamente um defeito. Pelo contrário, ela combina muito com a história e com a fase da vida em que os personagens estão. Eles precisam esperar as coisas acontecerem, precisam conviver com a dúvida e, principalmente, precisam aprender a conviver consigo mesmos.
E o plot de morar juntos é um dos grandes atrativos. Duas pessoas que, em circunstâncias normais, provavelmente não escolheriam dividir a vida acabam colocadas na mesma casa justamente quando estão passando por momentos muito confusos. A convivência cria situações divertidas, encontros inesperados e muitas das melhores cenas do drama, mas também permite que a relação entre os dois seja construída de maneira muito gradual. O mais interessante é que, antes de serem um casal, Sena e Minami são duas pessoas tentando descobrir o que fazer com a própria vida. E acho que é aí que Long Vacation consegue ser muito mais do que uma comédia romântica.

Sena é músico, toca piano e sonha em se tornar um pianista profissional, só que o sonho não está funcionando como ele imaginava. Ele não consegue as oportunidades que gostaria, precisa dar aulas para pagar as contas e começa a questionar se vale a pena continuar insistindo em algo que, além de não garantir seu sustento, também está trazendo frustração. Existe ainda o peso de não conseguir tocar da maneira como gostaria, como se o sonho que deveria ser uma fonte de realização também fosse capaz de lembrá-lo constantemente de suas próprias limitações. Gosto muito desse conflito porque ele é extremamente humano.
Existe uma diferença enorme entre amar alguma coisa e conseguir construir uma vida a partir dela. Tendo isso em vista, Long Vacation não romantiza completamente essa escolha. Sena precisa pensar no dinheiro, no futuro e na possibilidade de que talvez precise abandonar ou modificar aquilo que sonhou para conseguir seguir em frente. Essa sensação de estar parado enquanto todo mundo parece estar avançando é muito presente no personagem, bem como a sensação de estar em um lugar que não gostaria, de fazer algo que não desejou para sua vida.
Minami passa por algo parecido, embora de uma maneira diferente. Ela também está em um momento em que sua carreira não está indo bem. Como modelo, começa a ter dificuldades para conseguir trabalhos e ainda precisa lidar com o machismo de pessoas que afirmam que ela está velha demais para continuar na profissão. Isso é especialmente interessante porque Minami é uma mulher tão expansiva, confiante e cheia de personalidade, mas por trás dessa postura existe alguém que também está insegura sobre o próprio futuro e sobre si mesma, de certa forma.
Além do problema profissional, ela começa a história sendo abandonada justamente no dia em que deveria se casar. O noivo não apenas foge, como leva todo o dinheiro dela e deixa a pressão da família e da idade pesando nos seus ombros. É uma situação quase absurda de tão cruel, mas acaba funcionando como o ponto de partida para uma história sobre duas pessoas que, de maneiras diferentes, estão se sentindo fracassadas, perdidas e um pouco abandonadas pela própria vida.
Acho que essa é uma das coisas que mais gostei no drama: a sensação de solidão da vida adulta está muito presente. Não é exatamente aquela solidão de estar fisicamente sozinho, ou que está nitidamente escancarada, porque Sena e Minami estão cercados de pessoas em vários momentos. É uma solidão mais difícil de explicar e perceber, aquela sensação de não saber para onde está indo, de olhar para a própria vida e perceber que ela não ficou parecida com aquilo que você imaginava alguns anos antes. Os dois estão vivendo uma espécie de intervalo. Eles ainda não chegaram ao próximo capítulo, mas também não conseguem voltar para o anterior. E é justamente nesse espaço que eles se encontram.
A construção individual dos protagonistas é muito boa. Conseguimos entender seus medos, inseguranças, desejos e as coisas que os impedem de seguir em frente. E acompanhamos os dois, aos poucos, vencendo algumas dessas barreiras. Não existe uma transformação milagrosa em que tudo se resolve de uma hora para outra, eles vão descobrindo algumas coisas através da convivência, das conversas e também das frustrações.

Minami, para um drama de 1996, é uma protagonista muito à frente do seu tempo. Ela não é aquela mocinha passiva esperando que alguém resolva sua vida. É expansiva, fala o que pensa, não tem papas na língua e é extremamente divertida. Ela pode ser impulsiva e até um pouco inconveniente às vezes, mas justamente por isso parece muito viva. Gosto de como o drama não transforma a personalidade forte dela em um defeito que precisa ser corrigido.
Sena é praticamente o oposto. Cerca de sete anos mais novo que ela, é calmo, reservado, introvertido e muito mais contido. Ele pensa antes de falar, gentil, guarda muitas coisas para si e tem uma delicadeza que combina muito com a forma como toca piano. A diferença de idade e de personalidade poderia fazer com que os dois não funcionassem, mas acontece justamente o contrário.
Long Vacation não trata essa diferença de idade apenas como uma característica da relação, mas também mostra alguns dos obstáculos que surgem quando o interesse romântico envolve um homem mais jovem e uma mulher mais velha. Existe uma certa resistência em aceitar essa possibilidade, tanto pelas expectativas em torno da idade quanto pela ideia de que homens e mulheres deveriam estar em momentos diferentes da vida. Isso acaba interferindo na forma como eles enxergam os próprios sentimentos.
Ao mesmo tempo, acho interessante como a história utiliza isso para mostrar que, apesar da diferença de idade, estar no começo dos vinte ou no começo dos trinta não significa estar em mundos tão diferentes quando falamos das inseguranças da vida adulta. Os dois estão tentando encontrar seu lugar, lidar com expectativas, tomar decisões sobre carreira, relacionamentos e futuro, e descobrir o que fazer quando os planos não saem como imaginavam. As dificuldades podem assumir formas diferentes, mas a sensação de estar perdido, de não saber qual caminho seguir e de se perguntar se está fazendo as escolhas certas é muito parecida.
Nesse sentido, a diferença de idade acaba funcionando quase como um contraste interessante: eles estão em momentos diferentes da vida, mas enfrentam algumas das mesmas angústias. Long Vacation mostra que não existe uma idade em que finalmente descobrimos como viver. Aos vinte ou aos trinta, ainda podemos estar tentando entender quem somos, o que queremos e para onde estamos indo.
Assim, a dinâmica entre nossos protagonistas é louca e cativante. Eles são diferentes em várias coisas, mas também possuem gostos, sensibilidades e maneiras de enxergar o mundo que acabam aproximando os dois. E gosto muito de como o drama vai mostrando isso através do cotidiano, das conversas e dos pequenos momentos. Não é simplesmente “eles brigam e depois se apaixonam”. Existe uma amizade sendo construída antes, existe confiança, intimidade e uma sensação de que eles começam a conhecer partes um do outro que poucas pessoas conseguem enxergar. E a química entre eles é ótima. Talvez até boa demais, porque justamente por gostar tanto da dinâmica dos dois eu fiquei querendo muito mais romance. Eu queria ver mais deles demonstrando seus sentimentos, mais cenas em que pudessem simplesmente aproveitar a relação e menos tempo na fase de repressão, confusão e tentativa de gostar de outras pessoas.

Essa é uma das minhas maiores ressalvas com o drama. Muitos conflitos acabam sendo deixados para serem resolvidos muito perto do final, seguindo aquele clichê clássico das comédias românticas mais antigas, em que o casal precisa passar praticamente pela história inteira sem assumir aquilo que já está bastante claro para todo mundo. Eu entendo que isso faz parte do gênero e da época, mas, em alguns momentos, senti que Long Vacation poderia ter aproveitado melhor a própria química que construiu.
Os interesses amorosos secundários também começam a pesar. Parece que Sena e Minami nunca têm tempo para perceber o que sentem porque estão sempre ocupados pensando ou tentando gostar de outras pessoas. No início, funciona muito bem para criar conflito, principalmente porque os dois ainda estão tentando entender seus sentimentos, mas chega um ponto, especialmente perto da reta final, em que essa dinâmica começa a ficar cansativa.
E o casal secundário, para mim, é ainda mais problemático. Sinto que eles acabam existindo principalmente para comer tempo de tela. Eles recebem bastante atenção, mas a dinâmica entre os dois é difícil de compreender, e não acho que o desenvolvimento justifique todo o espaço que ocupam. No início, eles servem para movimentar a história e gerar conflitos, mas, depois que ficam juntos, o relacionamento, que já parecia meio desajustado, só fica ainda mais estranho.Talvez a intenção fosse justamente mostrar uma relação que não funciona direito, mas acho que isso poderia ter sido feito de uma forma mais interessante. Para mim, acabou ficando sem graça, confuso e não produziu o efeito esperado. Em vários momentos, pensei que seria melhor simplesmente não existir um casal secundário e que esse tempo pudesse ser usado para desenvolver mais os protagonistas.
Assim, isso é particularmente frustrante porque Long Vacation é um drama viciante. Durante boa parte da história, ele realmente prende você na tela. Eu queria continuar assistindo, queria saber o que aconteceria e gostava de acompanhar a convivência deles. Mas sinto que, nos três ou quatro últimos episódios, o drama começa a me perder um pouco. Não porque tudo fique ruim, mas porque você já está cansada de esperar algumas coisas acontecerem. Eu queria mais do casal principal justamente porque eles funcionavam tão bem. Queria vê-los depois que parassem de fugir dos sentimentos, queria mais momentos românticos, mais demonstrações de carinho e mais espaço para que a relação que construíram como amigos pudesse finalmente se transformar em alguma coisa. A demora acaba sendo mais perceptível porque existe uma química muito boa esperando para ser explorada.
Ainda assim, o drama é cheio de cenas que hoje parecem icônicas. Existe uma sensação muito gostosa de estar assistindo a algo que se tornou um clássico justamente porque veio de um clássico. Algumas cenas têm um charme que dificilmente funcionaria da mesma maneira em uma produção atual. Até os silêncios, as esperas e os momentos aparentemente banais ganham outro significado.
Logo, não posso deixar de falar do piano, já que ele está presente durante praticamente toda a história, e isso dá uma identidade muito bonita para o drama. As músicas embalam as cenas tristes, românticas e nostálgicas, fazendo com que momentos simples ganhem uma dimensão quase épica. É como se o piano fosse mais uma forma de traduzir aquilo que os personagens não conseguem dizer. Eu, particularmente, gosto demais disso porque oferece um charme muito particular à história.

Outra coisa que considero muito bonita é a maneira como Long Vacation trabalha os amores não correspondidos. Nem todo sentimento é correspondido na hora em que gostaríamos, e nem sempre a pessoa que queremos está disponível para nos amar da maneira que precisamos. Os personagens passam bastante tempo tentando lidar com sentimentos que não podem simplesmente desaparecer porque seria mais conveniente. Essa concepção se conecta muito com a ideia de amadurecer e aceitar que algumas coisas não dependem apenas da nossa vontade. A vida adulta também aparece como uma sucessão de escolhas difíceis. Em algum momento, precisamos decidir se continuamos insistindo em algo, se mudamos de caminho, se deixamos uma pessoa para trás ou se damos uma chance para algo que nunca havíamos considerado. E tomar essas decisões pode ser assustador justamente porque não existe garantia de que estamos escolhendo certo.
É aí que entra a ideia de uma “long vacation”, que acho que é uma das mensagens mais bonitas do drama. Às vezes, quando a nossa vida não está dando certo, a primeira reação é tentar consertar tudo imediatamente. Procurar outro emprego, insistir naquele relacionamento, correr atrás daquele sonho, tentar provar que ainda somos capazes. Mas nem sempre forçar as coisas faz com que elas funcionem. Às vezes, precisamos parar. Tirar férias da própria vida não significa desistir dela. Significa reconhecer que estamos cansados, que alguma coisa não está funcionando e que talvez seja necessário um tempo para respirar antes de tomar uma decisão. Sena e Minami estão justamente nesse intervalo. Eles não sabem muito bem para onde estão indo, mas a convivência entre eles cria um espaço em que podem simplesmente existir por um tempo sem precisar ter todas as respostas.
Além disso, gosto muito de como essa ideia não é tratada como uma fuga permanente. As férias precisam acabar. Em algum momento, precisamos voltar para a nossa própria vida e tomar as rédeas dela novamente. Precisamos fazer escolhas, mesmo quando elas são difíceis. Precisamos aceitar que alguns sonhos talvez precisem mudar, que algumas pessoas não vão ficar, que alguns amores não serão correspondidos e que talvez seja necessário começar de novo.
Acho que é por isso que a história consegue ser tão reconfortante mesmo quando fala sobre fracasso, solidão e incerteza. Ela não promete que tudo vai dar certo imediatamente. O que ela parece dizer é que tudo bem não saber o que fazer por um tempo. Tudo bem parar. Tudo bem ter uma fase em que você simplesmente não sabe qual é o próximo passo. Mas também chega uma hora em que precisamos dar esse passo. No fim, Long Vacation é uma história que me conquistou muito mais pelo conjunto do que pela execução perfeita de cada elemento. É nostálgica, divertida, tem protagonistas muito bons, uma química ótima, uma trilha sonora marcante e uma sensibilidade muito particular para falar sobre pessoas que estão tentando descobrir o que fazer com a própria vida.
Talvez a maior graça esteja justamente nessa longa pausa que nossos dois protagonistas vivem juntos. Eles começam a história acreditando que suas vidas deram errado e terminam entendendo que talvez aquilo que parecia um fracasso fosse apenas um intervalo antes de alguma coisa nova. E talvez seja essa a mensagem que mais ficou comigo: às vezes precisamos nos permitir uma longa viagem, uma longa pausa, umas férias da vida. Não para fugir para sempre, mas para descansar, olhar para nós mesmos, entender o que queremos e, quando chegar a hora, voltar e escolher novamente o caminho que queremos seguir. Em muitos momentos, é nessas longas férias que nossos presentes chegam, que a vida nos surpreende e que as coisas se acertam. Existe um encanto muito particular em reservar um tempo para simplesmente deixar as coisas acontecerem, sem transformar cada pausa em motivo para desespero ou cada dificuldade em algo que precisa ser resolvido imediatamente. Às vezes, é nesse espaço entre uma coisa e outra que recebemos aquilo que não estávamos esperando e percebemos que nem tudo estava perdido; talvez a vida só estivesse nos dando um pouco mais de tempo.
O drama está disponível na Netflix