Love Me: Recomeços, culpas e o peso de continuar

Love Me: Recomeços, culpas e o peso de continuar

“Sabe a diferença entre solidão e isolamento? Isolamento é a alegria de escolher ficar sozinho. Solidão é a dor de estar sozinho contra a sua vontade… Então, agora, como está se sentindo? Está em isolamento ou solitário?”

É possível amar alguém de verdade sem antes aprender a se amar e se perdoar pelos próprios traumas? Esse é o questionamento que mais me fiz enquanto assistia ao melodrama Love Me, lançado em 2025 e estrelado por Seo Hyun Jin, Yoo Jae Myung, Lee Si Woo e Jang Hye Jin, que ao longo de 12 episódios acompanha uma família fragmentada que, após uma perda inesperada, é forçada a encarar aquilo que sempre evitou: mágoas antigas, distâncias afetivas e a solidão que cada um carrega em segredo.Mais do que falar sobre romance, a trama mergulha nas cicatrizes que moldam nossas relações, questionando se o amor é capaz de consertar o que nunca foi curado, ou se a reconstrução precisa começar de dentro para fora.

Desde o primeiro episódio, este drama deixou claro que é exatamente o tipo de história que procuro quando digo que quero sentir um k-drama, não apenas uma coisa de chorar, mas realmente sentir os personagens, sua solidão, hesitação e tudo o que eles não dizem em voz alta. A produção se apoia fortemente no silêncio, na linguagem corporal e em expressões sutis, e faz isso tão bem que muitas vezes sinto como se pudesse ouvir os pensamentos dos personagens sem que eles precisem se explicar. E tocante de ver e acompanhar a complexidade dos sentimentos que, por muitas vezes, nem mesmo eles conseguiam nomear.

Tudo começa quando a matriarca da família, Kim Mi Ran (Jang Hye Jin), sofre um grave acidente de carro e perde um pé e, junto com ele, parece perder também qualquer vontade de seguir em frente. O que podia ter sido apenas um processo de adaptação se transforma em algo muito mais cruel, onde durante sete anos, ela passa a manipular emocionalmente, mesmo sem querer, todos ao seu redor através da culpa, como se sua dor justificasse aprisionar a família inteira ao seu sofrimento. Ela se isola dentro de casa e, pouco a pouco, transforma aquele lar em uma prisão silenciosa, escura, onde ninguém respira com leveza e evitam estar. O mais desconcertante é que seus filhos são pessoas decentes, o marido é leal e carinhoso, e ainda assim ela escolhe o caminho mais destrutivo possível. Quando entramos na história, a ligação familiar já está quebrada, todos tensos, sempre armados à beira de um conflito e, quando ela inesperadamente morre, em vez de alívio, o que surge é uma explosão de culpa, recriminações e mágoas acumuladas, como se a ausência dela fosse dolorosa tanto quanto sua presença. Com isso, a morte não encerra o sofrimento, ela apenas expõe feridas que estavam apodrecendo há anos.

Com isso, o drama nos apresenta Seo Jun Kyung (Seo Hyun Jin), uma mulher solitária que escolhe fugir e se esconder, em vez de lidar com aquilo que ainda a machuca, a culpa. Se pensarmos bem, ela é como a sua própria  máquina de lavar, que ficou tempos quebrada, ela sabia que a máquina (assim como ela) estava quebrada, mas escolheu não consertar, o que, na verdade, é a sua forma de não encarar o problema. Afinal, se você (finge que) não viu, então não é de fato um problema… certo? Na verdade… não está certo, porque assim como a máquina quebrada a obriga a sair para lavar roupas fora de casa, Jun Kyung também vive se deslocando emocionalmente, buscando abrigo na casa da amiga ou em qualquer outro lugar, simplesmente para evitar esses conflitos que se recusa a enfrentar do seu passado, a sua própria casa, é como se permanecer em movimento fosse mais fácil do que parar e sentir. Como se, ao nunca ficar tempo demais em um lugar, ou em uma relação, ela pudesse escapar do peso das próprias memórias e da culpa dela. Com isso o que mais machuca é notar que não se trata apenas de praticidade ou descuido, mas de autopunição, Jun Kyung parece acreditar que não merece conforto, estabilidade ou descanso. Consertar a máquina significaria consertar a si mesma, admitir que está machucada e que precisa de ajuda. E isso exige coragem demais para alguém que aprendeu a sobreviver se anestesiando.

E, assim como dito no início, o drama é sobre a solidão que cada personagem tem e, no caso da Jun Kyung, o que fica mais visível é que após a perda, o silêncio sufocante toma de conta de si mesma como uma bomba relógio. Quem assiste fica se perguntando até quando ela vai conseguir se segurar. Em vez de chorar ou desabar, ela reage como sempre reagiu à vida, se fechando, organizando tudo de forma prática, quase automática, como se resolver burocracias fosse mais fácil do que encarar o luto, afinal, parafraseando ela, “cada pessoa tem sua forma de sentir”. Só que, dessa vez, a ausência é grande demais para ser varrida para debaixo do tapete, afinal, o arrependimento a obriga a sentir aquilo que passou anos evitando. Mas a perda também faz com que ela, aos poucos, quebre essa armadura que se vestiu e se permita falhar, depender dos outros e, principalmente, permitir-se  tentar aceitar afeto (o que não é um processo fácil). A perda, paradoxalmente, se torna o empurrão que faltava para ela parar de apenas sobreviver e finalmente tentar viver.

E, assim como a jornada emocional de Jun Kyung, Seo Jin Ho (Yang Jae Myung), o pai dela, carrega uma solidão e um conflito internos profundos que também moldam o coração do drama (e que me emocionaram juntos). Católico e completamente devoto a esposa desde o casamento, desde antes de ficar viúvo, Jin Ho já havia se afastado do mundo ao dedicar sua vida ao cuidado dela, mesmo a contragosto da mesma, e quando ela se vai, fica claro que ele não sabe como continuar vivendo sem aquela rotina que, de certa forma, o ancorava, e tudo fica mais dificil, ouvir os lamúrios enquanto ia ao mercado, tomar sorvete sozinho e permanecer naquela casa, que antes clara, agora ficou mais escura e fria. E, assim como a filha, em vez de enfrentar a própria dor ou nomear o que sente, ele se refugia em maneiras silenciosas de evitar o luto, sorrindo para o mundo como se nada tivesse acontecido e, internamente, tentando encaixar o que restou de sua vida em uma normalidade que já não existe.

Se olharmos bem, é justamente esse impasse entre o amor profundo que ainda sente pela esposa e a sensação confusa de estar, aos poucos, se abrindo para outra pessoa que torna sua solidão tão forte. Em uma viagem a Jeju, por exemplo, ele acaba conhecendo uma guia turística gentil que, sem pressa nem julgamento, começa a mostrar a ele que talvez seja possível sentir novamente mesmo depois de uma perda devastadora, e o melhor é que essa nova relação não apaga o amor pelo passado, mas deixa espaço para que o coração se mova com cautela em direção ao novo. No entanto, a nova realidade também mostra a vulnerabilidade dentro dele, uma vez que se sente culpado por, de certa forma, seguir adiante, como se ainda tivesse uma dívida de amor com a esposa falecida, ao mesmo tempo em que anseia por conexão e afeto humanos. Essa tensão emocional mostra, de modo complementar, o que sua filha enfrenta, dois modos diferentes de lidar com o mesmo trauma, dois corações reclamando por cura e, aos poucos, aprendendo que se permitir sentir é parte essencial de viver novamente. No fim, luto não apenas tirou dele a mulher que amava, mas também a identidade que construiu por décadas, o obrigando a reaprender quem era sem ela, e, juntamente, foi essa ausência que o empurrou a entender que continuar vivendo também é uma forma de amar.

E, assim como eles, Jun Seo (Lee Si Woo) – o filho mais novo dessa família – não fica para trás, mostrando uma forma diferente de solidão e de enfrentar o luto, mas assim como as anteriores, forte e emocionante. Confesso que esse personagem me irritou em muitos momentos, mas a irritação veio muito por conta deu me ver representada por ele, pois, quando eu estava em uma posição similar a dele em questão famíliares de tristeza e perca, eu tinha reações similares de me sentir perdida, desamparada e egoista, a ponto de achar que a minha dor era a maior que a de todos os outros, que só eu estava solitária, mesmo com tantas pessoas a volta. Jun Seo tem essa tendência de se fechar no próprio sofrimento, de agir por impulso, de afastar quem tenta ajudar, quase como se quisesse provar para si mesmo que ninguém realmente ficaria. Enquanto o pai silencia e Jun Kyung foge, ele explode. Ele transforma toda sua dor em irritação, em descuido, em escolhas erradas. Mas, no fundo, tudo o que ele quer é algo muito simples, ser amado sem precisar implorar por isso.

Ao longo da trama, fica claro que essa revolta não passa de medo. Medo de não ser suficiente, medo de decepcionar, medo de ser deixado para trás outra vez. Seu romance nasce justamente desse lugar mais frágil, da amizade, do conforto, de alguém que permanece mesmo quando ele não sabe como permanecer por si mesmo. E é bonito perceber como, aos poucos, Jun Seo vai deixando de agir como o garoto egoista que só olha para o próprio sofrimento para se tornar alguém capaz de enxergar a dor do outro também. O luto, que no início o deixava imaturo e reativo, acaba funcionando como um amadurecimento forçado, quase um choque de realidade. No fim, a perda não apenas o fez se sentir sozinho, ela o obrigou a crescer, a assumir responsabilidades emocionais e a entender que seguir em frente não significa esquecer, mas aprender a ficar. com os outros e consigo mesmo.

“Amar alguém… é uma benção”, Jin Ho

A narrativa de Love Me se apoia em três romances que não existem para “consertar vidas”, mas sim para mostrar que o amor não apaga dores, ele revela profundidades. O primeiro e mais evidente é o relacionamento entre Jun Kyung e Ju Do Hyun (Chang Ryul). Do Hyun surge na vida dela como uma presença gentil e paciente que não ignora a dor que ela carrega. Ele não é um herói surreal e nem o homem perfeito, mas alguém que oferece espaço vulnerável para que ela tente confiar novamente. Esse amor cresce devagar, sem pressa nem pressão, e mostra que uma conexão real pode existir mesmo quando as feridas não estão curadas.

O segundo romance é o de Seo Jin Ho com Jin Ja Young (Yoon Se Ah). Um homem que dedicou toda a vida à esposa e à família, ele só começa a sentir novamente quando encontra alguém que o vê com ternura, sem julgamento, e que já passou pela mesma perda que ele. Enquanto enfrenta a culpa por seguir em frente, essa relação o desafia a perceber que amar outra pessoa não significa trair o passado, mas aceitar que o coração pode ser reconstruído, um passo de cada vez. O relacionamento é amor maduro, tardio e silencioso, não há paixão arrebatadora, apenas companhia, cuidado e escolha diária. É o tipo de amor que nasce depois da perda, quando a pessoa já conhece a dor de ficar sozinha e entende que presença vale mais do que intensidade. 

O terceiro romance é aquele que envolve Seo Jun Seo e Ji Hye On (Kim Dahyun, do TWICE), sua amiga de longa data. O que começa como amizade é algo que, aos poucos, floresce sem alarde, sem que ninguém espere ou pressione. Essa conexão é construída no conforto, na compreensão e na sensação de ser aceito exatamente como se é. Esse casal representa o amor que não exige perfeição, apenas sinceridade e presença. Com isso, embora cada relação seja distinta, juntas elas refletem uma ideia central do drama de que a felicidade romântica não é um destino mágico que resolve todos os problemas, mas um processo humano que exige paciência, autocuidado e coragem para continuar tentando.

Os personagens secundários também carregam tramas próprias que vão muito além de simples apoio emocional para os protagonistas, e isso é algo que eu gostei bastante, porque ninguém ali existe só para “servir” a história de outra pessoa. A Ja Young, por exemplo, mesmo com aquele jeito leve e expansivo, carrega a dor de também ter perdido o marido, e talvez seja justamente por isso que ela entende tão bem o silêncio do Jin Ho, sem pressionar, sem exigir respostas, apenas estando ali. Já o Do Hyun, que poderia facilmente ser apenas o interesse amoroso da Jun Kyung, ganha um arco muito mais humano onde além de lidar com os sentimentos confusos dela, ele precisa aprender a ser pai, tentando reconstruir o vínculo com o filho adolescente depois de 15 anos separados, tateando erros, inseguranças e culpas por não ter estado presente. Essa tentativa desajeitada de aproximação diz tanto sobre ele quanto o romance em si, porque mostra que amar também é responsabilidade, não só sentimento. E a Hye On, por sua vez, não vive apenas em função do Jun Seo, ela está correndo atrás do próprio sonho de se tornar escritora, enfrentando frustrações, rejeições e aquele medo constante de não ser boa o suficiente. No fim, todos eles estão lutando batalhas paralelas, tentando sobreviver à vida adulta do jeito que dá, o que deixa o drama ainda mais emocionante, porque reforça que ninguém ali está completo ou resolvido, estão todos, simplesmente, tentando.

No fim, o que mais sustenta Love Me não são apenas os romances, mas a própria relação familiar, porque é ali que todas as feridas realmente começam. Pai e filhos dividem a mesma casa, comem na mesma mesa, cruzam o mesmo corredor todos os dias, mas emocionalmente parecem morar em lugares completamente diferentes. Há carinho, mas ele quase nunca é verbalizado. Há preocupação, mas ela se manifesta em silêncio ou em pequenas implicâncias, nunca em abraços ou conversas sinceras. Depois da morte da mãe, a casa deixa de ser lar e vira memória constante, cada cômodo guarda um fantasma, cada objeto parece lembrar o que foi perdido e o “Boa noite” que nunca foi dito. Ninguém sabe exatamente como agir perto do outro, o pai tenta ser forte demais, Jun Kyung se esconde no próprio mundo, Jun Seo reage com irritação, e assim eles passam a se machucar sem querer, como estranhos tentando conviver no mesmo espaço. O mais doloroso é perceber que eles se amam profundamente, mas simplesmente desaprenderam a demonstrar isso. E é essa convivência travada, cheia de culpas, ressentimentos e coisas não ditas, que faz a solidão do drama doer ainda mais, porque Love Me mostra que às vezes não estamos sozinhos no mundo, estamos sozinhos dentro da própria família.

Dito isso, dentro dessa ideia de estarmos sozinhos no mundo, o drama questiona o que de fato é a solidão e a diferença da definição entre solidão e isolamento. Porque, em Love Me, ficar sozinho nem sempre é o problema, o que machuca é o sentimento de abandono, de vergonha, de achar que você não deveria estar sozinho, mas que também não pode estar acompanhado. A solidão é mostrada quase como silêncio ou pausa, um momento de respiro, mas o isolamento é outra coisa, é quando você constrói muros ao redor de si e passa a acreditar que não merece ser alcançado. Jun Kyung, por exemplo, não sofre apenas por estar só, ela sofre porque se pune, porque acredita que não merece conforto. Jin Ho se isola ao sorrir para o mundo e fingir que está bem, como se demonstrar dor fosse fraqueza. Já Jun Seo transforma a solidão em barulho, em irritação, em afastamento, como se machucar os outros fosse uma forma de se proteger primeiro. Em todos eles, a dor não nasce da ausência de pessoas, mas da incapacidade de se permitir ser visto. Em vários momentos, vendo como o romance não é colocado como cura para a solidão deles, cheguei a me perguntar se a própria indústria dos doramas não vende o romance como uma “solução milagrosa”, quase como se precisássemos de alguém para “nos completar”, quando, na verdade, ninguém deveria se sentir incompleto para começo de conversa.  Solidão não é necessariamente escuridão, às vezes é só introspecção, às vezes é até liberdade. Ela só se torna destrutiva quando vira culpa ou vergonha. E acho bonito como o drama não tenta romantizar isso nem oferecer respostas fáceis, ele apenas mostra pessoas cansadas, falhas, humanas demais, aprendendo, aos poucos, que permitir companhia é diferente de depender dela para existir.

“‘A solidão é uma coisa boa, mas precisamos de alguém para nos dizer isso’, Honoré de Balzac. Se está sozinho agora, posso dizer isso para você, posso dizer que a solidão é boa”, Jun Kyung

E, talvez, seja justamente dessa culpa que nasce outro tema que o drama trabalha em todo episódio, o egoísmo. a trama parte de uma ideia simples, mas desconfortável, de que “todos os humanos são egoístas” em algum nível, não por maldade, mas por sobrevivência. Quando a dor aperta demais, a primeira reação quase sempre, é olhar para si, muitas vezes ficamos até cegos. Jun Kyung foge porque acha que proteger o próprio coração é prioridade, Jin Ho hesita em seguir em frente porque tem medo do julgamento dos filhos, mas também porque quer preservar a própria paz, enquanto Jun Seo age como se o sofrimento dele fosse maior que o de todo mundo, incapaz de enxergar a exaustão do pai e a solidão da irmã. Nenhum deles está tentando ferir o outro de propósito, eles só estão… cansados demais para serem fortes o tempo todo. E eu gosto de como o drama não condena isso, sabe? Apenas mostra que é parte da vida. Ser egoísta, às vezes, é só a maneira torta que encontramos de continuar respirando. O amadurecimento deles não acontece quando deixam de pensar em si, mas quando finalmente percebem que o outro também está sangrando. E é nesse reconhecimento silencioso que, pouco a pouco, eles começam a reaprender a ser família.

Mesmo tendo amado o drama, não posso, jamais, dizer que ele é isento de defeitos porque em seu decorrer muitas vezes eu me sentia perdida na passagem de tempo e alguns plots realmente achei que foram mal desenvolvidos ou foram desnecessários, principalmente os que estão ao redor da trama de pai e filho do Do Hyun com o Daniel. Também achei que as tramas dos personagens secundários foram apagadas, eu até entendo que a produção quis dar mais enfoque na solidão do Jin Ho, Jun Kyung e Jun Seo e como estavam lidando com o luto e o recomeço das suas vidas, no entanto, acho que a escolha sacrifica a gente conhecer alguns dos personagens secundários.

Tecnicamente falando, o drama acerta demais no modo como constrói essa melancolia, as atuações são extremamente contidas, quase silenciosas, e isso faz toda a diferença. Não há grandes explosões dramáticas ou choros exagerados, muita coisa é transmitida no olhar, na respiração presa, no sorriso forçado. Seo Hyun Jin, principalmente, carrega cenas inteiras apenas com expressão facial (a cena dela no acidente  gente… Deem um Daesang para essa mulher), e tem momentos em que você sente a dor dela antes mesmo que ela fale qualquer coisa. A fotografia também contribui muito para esse clima, com ambientes escuros, luz natural baixa, tons frios e sombras constantes que deixam a casa mais pesada, quase sufocante, como se o próprio cenário estivesse de luto junto com os personagens. Até os espaços abertos parecem silenciosos demais. Essa escolha estética acentua a sensação de vazio e cansaço emocional. A direção segue o mesmo caminho, priorizando planos longos, pausas e cenas que “respiram”, sem pressa de cortar o desconforto, nada é apressado, e isso faz com que a dor pareça mais real. É o tipo de produção que entende que, às vezes, menos é mais, e que o silêncio pode machucar muito mais do que qualquer OST.

Esse não é um drama para qualquer pessoa! Love Me não é leve, não é confortável e definitivamente não é o tipo de história que você assiste para “desligar a cabeça” depois de um dia cansativo. Ele exige entrega emocional, paciência e, às vezes, até coragem, porque mexe em feridas que muita gente prefere fingir que já cicatrizou (o que aconteceu comigo). Fala sobre luto, solidão, culpa, egoísmo, sobre o cansaço de ser adulto e continuar funcionando mesmo quando tudo dentro de você quer parar. Mas é justamente nessa honestidade quase crua que mora a beleza dele. O k-drama não tenta salvar ninguém, não romantiza a dor e nem promete finais perfeitos, ele só acompanha essas pessoas comuns tentando continuar, errando, se machucando, aprendendo a ficar, e seguindo vivendo.

Aos poucos, sem que eu percebesse, eu já estava ali dentro daquela casa também, dividindo o silêncio da mesa de jantar, sentindo o peso dos corredores vazios enquanto olhava aquela foto de família na parede e a cama hospitalar vazia, torcendo para que eles conseguissem dizer “eu te amo” antes que fosse tarde demais. Quando terminou, não senti um grande impacto dramático, mas um vazio calmo de que a vida ainda continua, aquele silêncio depois de chorar muito, como se eu também estivesse me despedindo de algo que fez parte de mim. Love Me não parte o coração de uma vez, ele aperta devagar, com cuidado, até você perceber que estava vivendo aquela dor junto com eles e, talvez, seja isso que torne a experiência tão especial: no fim, não é uma história sobre encontrar alguém que te complete, mas sobre aprender que, mesmo quebrados, ainda podemos escolher permanecer. Amar. E continuar.

Love Me está disponível no Viki!

Alice Rodrigues

Estudante de Comunicação social – Jornalismo, e atuando como social media, criadora de conteúdo digital e assessora de imprensa. Além de amar conhecer novas culturas, é viciada em ler e ouvir inúmeros podcast de assuntos variados. Dorameira desde de 2016, adora acompanhar e analisar narrativas e conteúdos que fazem parte da criação de um drama (elenco, filtros usados, fotografia, simbologia das cenas e outros).

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