Cashero: entre o dinheiro e o que nos sustenta

Cashero: entre o dinheiro e o que nos sustenta

Kang Sang Ung (Lee Jun Ho) sempre foi pobre e nunca recebeu dos pais nada além de repolhos e legumes. Dinheiro? Algo com valor material? Nada disso. Mas, quando está prestes a juntar suas escassas economias para comprar um apartamento com a namorada de longa data – e agora noiva – Kim Min Suk (Kim Hye Joon), ele recebe um presente inesperado, que não pediu e nem esperava: um superpoder. Soa quase absurdo que justamente o pai, sempre tão relapso, esteja agora lhe passando um poder hereditário e o pior: para que ele funcione, o protagonista precisa ter grandes quantias de dinheiro.

Perplexo, Sang Ung escuta o pai afirmar que, à medida que utiliza o seu poder recém-adquirido, todo o dinheiro que carrega vai sendo consumido e transformado em moedas de pouco valor. A questão é que ele precisa socorrer pessoas em perigo por meio desse poder. Voar? Ter superforça? Sobreviver a tiros? Ele consegue, mas tudo isso exige dinheiro. Quanto mais dinheiro possui, mais eficiente se torna a sua capacidade.

Essa notícia poderia ser ótima, se o protagonista 1) fosse rico e 2) não precisasse juntar cada centavo para construir a própria vida ao lado da mulher que ama. É por isso que Sang Ung se vê diante de dilemas que não cabem em uma carteira: quanto vale salvar o mundo quando o preço é a própria sobrevivência? O dinheiro sustenta a vida, mas quem sustenta o dinheiro quando ele vira um sacrifício?

Cashero é preciso ao nos transportar para a realidade do protagonista. Mesmo partindo de uma premissa aparentemente absurda, a de um super-herói que precisa de dinheiro para usar seus poderes, o drama consegue dialogar com o público justamente naquilo que todos nós, inseridos dentro do capitalismo, desejamos e tememos: o dinheiro. Afinal, é a sua escassez que nos impede de realizar sonhos e de construir a vida que imaginamos.

Para Sang Ung, isso é ainda mais latente. Ele, um homem simpático e gentil, com um jeito quase bobo de ser, passa a sentir com mais intensidade o peso de não ter dinheiro, ou, em outras palavras, o peso do próprio superpoder. Seu dom o coloca diante da possibilidade concreta de viver uma vida egoísta, porque ele também não pode se dar ao luxo de perder dinheiro.

O k-drama é certeiro ao nos conduzir por essas questões éticas e morais, principalmente porque, se pararmos para pensar, elas atravessam o que significa viver em uma sociedade como a nossa, em que o dinheiro é visto como o motor que move tudo.

Ver um desastre e não poder fazer nada. Ver alguém precisando de ajuda e não parar para socorrer. Quantas vezes milhares de pessoas fazem exatamente isso sem nenhuma limitação real? Simplesmente porque, quando pensamos no dinheiro, no cotidiano corriqueiro que precisamos seguir para obtê-lo, ou quando a soberba que ele alimenta infla o nosso egoísmo, tudo o mais é deixado de lado. Assistir pessoas sendo maltratadas enquanto cuidamos apenas da própria individualidade tornou-se algo intrínseco à maneira como o ser humano se construiu ao longo dos séculos. Cashero não sussurra isso, ele grita para nós.

É por isso que a premissa de poderes e super-heróis não é vazia dentro do enredo: ela carrega uma mensagem clara e traz consigo reflexões valiosas. Além disso, é interessante pensar em poderes que não são infinitos e que possuem suas próprias limitações. À medida que o drama se desenvolve, conhecemos outros humanos com habilidades semelhantes às do protagonista, mas todos têm um ponto de esgotamento: o homem que precisa beber álcool para ativar seus poderes, ou a menina que depende de pãezinhos para conseguir usá-los.

Gosto do fato de Sang Ung não estar isolado dentro desse universo e de o drama criar conexões com outros núcleos, revelando que existe uma trama maior por trás de tudo isso, afinal, ele também precisa salvar o mundo (como todo super-herói) e enfrentar vilões.

Sang Ung e sua amada, Min Suk.

Ao mesmo tempo, acompanhamos o desenvolvimento da relação amorosa entre ele e sua noiva – depois esposa –, já que essa nova realidade imposta pelos poderes cria fricções e questionamentos dentro do relacionamento. Pelo bem do casal, ele não deveria usá-los, mas a realidade que se impõe o obriga a fazê-lo.

Nesse sentido, o romance entre Sang Ung e Min Suk é uma das partes mais preciosas do drama. Eles nos entregam beijos cinematográficos magníficos, mas, acima de tudo, uma parceria feita de cuidado e presença. Encanta a forma como Sang Ung é um homem que escuta e respeita a amada (leia-se é um gado obediente à ela, adoro kk), enquanto Min Suk assume o papel de cérebro racional da relação. É impossível não torcer pela felicidade desse casal, que nos apresenta um vínculo solidificado à base de diálogo e confiança.

Com pitadas de romance e muita ação, um mundo para salvar, vilões para derrotar e um dilema ético e moral a ser enfrentado, Cashero não se torna entediante em nenhum momento. Ao contrário, cumpre muito bem o seu papel como uma série curta e ágil – com apenas oito episódios -, perfeita para ser assistida em um dia de folga, com a garantia quase certa de diversão.

Os monólogos internos de Sang Ung são especialmente divertidos, pois brincam o tempo todo com a sua relação conflituosa com o dinheiro. A narrativa mantém um bom ritmo até o final, sustentada por atuações extremamente sólidas, tanto dos protagonistas quanto dos vilões (Kang Ha Na e Lee Chae Min arrasam em seus papéis). O resultado é uma mistura equilibrada de história leve, personagens carismáticos, boas atuações e um drama que, mesmo sem ser totalmente inovador ou impecável, possui sua própria unicidade e encanto. É um típico drama de super-herói, com frases de efeito e um mundo a ser salvo e, ainda assim, conquista.

Kang Han Na como vilã

Isso não significa que Cashero seja isento de falhas. Em vários momentos, ele cai no problema da superficialidade, fruto da tentativa de se construir como uma série rápida, rasa e altamente comercializável. O ritmo ágil facilita o consumo, mas tropeça em transições apressadas e em emoções que não têm tempo suficiente para serem plenamente processadas e desenvolvidas, com uma premissa tão interessante o drama com certeza poderia ter feito mais em termos de mensagem crítica e densidade.

Esse mesmo fator impacta a construção de personagens secundários e vilões, que poderiam ser mais aprofundados, já que o drama tem como ponto de concentração o protagonista masculino. Para quem busca algo profundamente denso, talvez o drama não agrade. Mas, para quem deseja apenas passar o tempo com algo leve, dinâmico e divertido, sem se prender às inconsistências, Cashero funciona bem. Não à toa, figura entre os títulos mais assistidos da Netflix Brasil desde o lançamento.

Mesmo que o k-drama não seja esse poço de profundidade, ele trouxe mensagens relevantes enquanto eu o assistia. Ao parar para refletir, há algo de profundamente cruel na forma como o dinheiro se infiltra na vida das pessoas. Em Cashero, essa presença ganha corpo: o dinheiro deixa de ser apenas aquilo que sustenta a vida e passa a ser o que decide quem continua nela.

Fora da ficção, o dinheiro não permite voar ou ter superforça, mas concede algo que se parece muito com isso: a sensação de que certos medos não alcançam quem pode pagar por distância, por proteção, por tempo. Ele dá confiança. Dá voz. Dá a sensação de que algumas quedas não acontecem com quem possui recursos suficientes para amortecê-las.

Cashero toca justamente nesse ponto sensível, não fala de poderes, fala de custo. Fala de como, em um mundo que cobra por tudo, até o cuidado precisa ser financiado. E talvez o que mais doa não seja perceber que o dinheiro pode comprar coisas, mas que, muitas vezes, ele decide quem pode continuar tendo tudo isso. No fim, permanece o questionamento de quantas vidas são negociadas por ganância, pela sede de ter mais e sempre mais.

Por outro lado, ao mesmo tempo que a trama nos faz enxergar o dinheiro como esse elemento dúbio, que oscila entre o corrosivo e o libertador, a jornada do protagonista também reverte essa lógica. Sang Ung responde à pergunta inquietante que o empurra para o dilema: o amor, o lar que ele deseja construir, a amada, as pessoas que ele salva e a própria dignidade passam a devolver força a ele. Não em grana, mas em sentido. E, assim, ele vai ficando mais inteiro.

O poder passa a ser uma forma de expressar o quanto ele ama, cuida, preserva e escolhe continuar. O que o sustenta deixa de ser a quantia e passam a ser os laços preciosos que constrói, o tempo compartilhado com quem ama e a força para proteger aquilo que realmente importa. A narrativa se transforma em uma trajetória sobre valor e sacrifício pessoal. Já não é mais sobre perder dinheiro para salvar pessoas, é sobre descobrir que o que mantém alguém de pé não cabe numa carteira.

Cashero está disponível para ser assistido na Netflix.

Brenda Mendes

Historiadora, professora e criadora de conteúdo digital, está sempre em busca de uma nova história para desbravar e aquecer seu coração, apaixonada por doramas de romance e slice of life, é uma leitora ávida há mais de 10 anos.

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