10DANCE: quando o corpo aprende a amar antes da palavra

10DANCE: quando o corpo aprende a amar antes da palavra

É possível aprender a amar sem palavras? Essa pergunta, que poderia parecer apenas poética ou retórica, na verdade se torna quase literal quando se observa a maneira como nos relacionamos com o mundo e com os outros e é, também, um convite a refletir sobre como muitas das barreiras que levantamos em torno de nossos sentimentos são construídas por nós mesmos, a exposição do que sentimos é sempre arriscada, e nem sempre há coragem suficiente para que as palavras cheguem a preencher o que o corpo já sente ou deseja comunicar, e é ai que 10DANCE entra, apresentando uma das manifestações mais belas e complexas dessa comunicação silenciosa, capaz de traduzir desejos, conflitos internos e vulnerabilidades sem que seja necessário recorrer a discursos explícitos: a dança.

Quando Suzuki Shinya (Ryoma Takeuchi), dançarino de dança latina com uma intensidade expansiva, quase agressiva, que transforma cada movimento em afirmação de presença, cruza o caminho de Sugiki Shinya (Keita Machida), mestre da dança de salão clássico, marcado por pura elegância, contenção e controle absoluto,o encontro não nasce de curiosidade ou afeto, mas de um atrito silencioso entre modos muito distintos de existir dentro da mesma arte. Veja bem,ambos carregam um talento excepcional, disciplina rigorosa e uma relação quase obsessiva com a dança, mas também carregam defesas emocionais tão firmes que qualquer tentativa de aproximação se dá primeiro pelo choque de corpo, ritmo e postura, e é justamente essa fricção que transforma a dança em linguagem de aprendizado, vulnerabilidade e, pouco a pouco, de desejo, uma área onde orgulho, masculinidade e medo de perder o controle se encontram e se vibram sem jamais precisar ser verbalizado, dando um ar de que a intimidade, muitas vezes, nasce do confronto mais do que do consentimento imediato.

A trama conta com uma proposta de competição das 10 danças, que é basicamente dominar cinco estilos latinos e cinco de salão clássico em um único dia, e isso poderia parecer um desafio somente técnico, quase mecânico para aqueles que estão acostumados, mas 10DANCE deixa claro desde o início que essa competição é algo muito maior, ela é usada para refletir como aprender a existir junto, confiar, ceder espaço, aceitar falhas e, acima de tudo, permitir que o outro ocupe o mesmo ritmo sem ser esmagado. Durante o filme, cada treino é ao mesmo tempo um exercício físico e emocional, onde o movimento se torna metáfora de entrega, vulnerabilidade e crescimento, também é onde a intimidade surge nos detalhes mais sutis, como no ajuste de um passo, na correção de postura, na respiração que se sincroniza com a do outro, mostrando que a arte, quando compartilhada, não exige apenas habilidade, mas coragem para se despir das certezas, dos hábitos mecanicos e das defesas que o orgulho masculino e o medo de perder controle impõem.

Quando pensamos neles como indivíduos, não podemos deixar de pensar em como duas pessoas tão diferentes se juntaram. O Suzuki vive a dança como impulso puro, ele é como um corpo que não consegue conter emoções, ambições e medos, se expressa em cada giro ou salto, enquanto Sugiki se protege atrás da contenção, do gesto calculado e da perfeição meticulosa, como se cada passo fosse um escudo contra a exposição de sentimentos que ele ainda não consegue nomear. É nesse contraste que 10DANCE constrói uma das reflexões mais delicada sobre masculinidade e vulnerabilidade, mostrando que o orgulho, quando não conciliado com a escuta do outro, pode tornar o corpo refém da própria rigidez, e que o controle absoluto, por mais admirável que pareça, sufoca tanto o movimento quanto o afeto, e é apenas ao se permitirem ajustar, ceder e confiar, mesmo que lentamente e com receio, que os Suzuki e Sugiki começam a descobrir que a dança pode ser, ao mesmo tempo, terreno de competição e espaço seguro para experimentar desejo, intimidade e reconhecimento mútuo.

Partindo disso, o romance entre Suzuki e Sugiki não vem acompanhado de declarações dramáticas ou gestos grandiosos, mas de silêncios, quase imperceptível para quem não se permite perceber os sinais do corpo e da atenção compartilhada. Tudo começa com um toque de uma mão na cintura, um olhar que se prolonga antes da música começar, um ajuste de peso que revela cuidado e um silêncio que segue um treino exaustivo, e é nesse cotidiano corporal que o filme consegue explorar um romance masculino adulto, maduro e sensorial, que evita os clichês de fanservice ou romantização exagerada, optando por uma intimidade física e emocional que cresce aos poucos, construída na tensão, na contenção e na entrega gradual, refletindo de forma honesta relacionamentos LGBTQ+ em contextos competitivos e realistas, e lembrando que o afeto verdadeiro nem sempre precisa ser anunciado em palavras ou gestos espetaculares, mas pode existir plenamente nas pequenas ações que, juntas, carregam o peso de desejos, vulnerabilidades e da coragem de se mostrar sem proteção.

Como disse antes, em 10DANCE, a dança não se limita a ser espetáculo visual, ela se torna linguagem e narrativa, uma forma de comunicar sem palavras, em que cada passo, giro e pausa carregam camadas de desejo, frustração, medo e confiança. Ela mostra que aprender a executar cinco estilos latinos e cinco de salão é, na prática, também aprender a ceder, a confiar e a lidar com o outro de maneira profunda, e nesse processo a coreografia funciona como metáfora da vida, mostrando que controlar cada gesto, dominar cada técnica, não é suficiente para existir em conjunto. É  preciso escutar, aceitar falhas, sincronizar ritmos e aprender a dividir espaço, como se cada dança fosse um exercício de intimidade e vulnerabilidade, e nesse caminhar, o filme revela uma importante questão: amar, assim como dançar, é gesto que se aprende gradualmente, entre tropeços e ajustes, entre impulsos que precisam ser contidos e gestos que precisam ser entregues, um equilíbrio que permite Suzuki e Sugiki perceberem a dimensão emocional e transformadora da arte que escolheram viver.

No aspecto da direção, fotografia e atuação, só tenho elogios. O diretor Keishi Otomo, junto a fotografia precisa e sensível, conseguiu transformar cada ensaio e cada competição em uma experiência prazerosa e quase palpável, visto que a câmera não se limita a registrar passos e, sim,observa o corpo dos personagens como um território emocional ao capturar as cenas de suor, respiração, tensão muscular e os olhares. Justamente por isso, também devo elogiar as atuações de Ryoma Takeuchi e Keita Machida, que carregam contenção e intensidade na medida certa para transmitir conflitos internos e o desejo contido apenas pelo ritmo do corpo e pela expressão silenciosa do olhar.

O filme constrói uma narrativa que se apoia na fisicalidade e na presença dos atores, e não em diálogos, com isso, provocou  em mim uma sensação de proximidade e intimidade que muitas vezes é mais poderosa do que qualquer exposição verbal, a lentidão e calmaria da produção mostram que a sutileza dos gestos e da emoções exige paciência, atenção e entrega. No entanto, achei que o excesso de foco na beleza das coreografias acaba subexplorando personagens secundários, cujas histórias e motivações permanecem pouco (ou nenhum pouco) desenvolvidas, funcionando mais como pano de fundo do que como suporte narrativo integral.

Além disso, a trilha sonora de 10DANCE também funciona como extensão da dança, se sincronizando com os corpos e amplificando cada tensão, cada pausa e cada deslize, enquanto a ambientação cuidadosamente construída transforma academias, salões e competições em espaços que respiram intimidade e competição simultaneamente, e é nesse equilíbrio entre música, ritmo e cenário que se percebe o cuidado da produção em criar uma experiência sensorial completa, em que, quem está assistindo, é convidado a sentir o esforço físico e emocional como se estivesse ali, junto aos protagonistas. Ainda assim, essa mesma construção atmosférica, embora envolvente, também revela limitações, já que em certos momentos a repetição de enquadramentos ou a insistência em sequências prolongadas pode criar uma sensação de lentidão ou arrasto narrativo, e, embora a intenção seja justamente permitir que cada gesto e cada olhar sejam absorvidos, há momentos em que a estética sensorial parece se sobrepor à necessidade de desenvolvimento narrativo, tornando certas passagens mais contemplativas do que efetivamente progressivas, e, ao mesmo tempo, é nessa contenção deliberada que se evidencia o tom adulto e maduro do filme, evitando excessos melodramáticos, fanservice ou romantizações fáceis, mas exigindo de quem está assistindo, uma entrega paciente e reflexiva.

Levando tudo isso em conta, concluo queo filme realiza com coragem e delicadeza, ao longo de seus movimentos, pausas e olhares, uma reflexão poderosa sobre entrega, vulnerabilidade e intimidade, mostrando que a arte e o amor são territórios onde se aprende a ceder, a confiar e a existir junto, mesmo sem garantias, e é justamente nessa disposição de se deixar sentir, de permitir que o corpo e a emoção falem antes das palavras, que o longa se torna inesquecível. Uma obra que permanece na memória não apenas como registro de uma competição de dança, mas como estudo sensível e honesto sobre o desejo, a masculinidade, a conexão e a coragem de amar e viver plenamente, mesmo diante da incerteza.

10DANCE está disponível na Netflix!

Alice Rodrigues

Estudante de Comunicação social – Jornalismo, e atuando como social media, criadora de conteúdo digital e assessora de imprensa. Além de amar conhecer novas culturas, é viciada em ler e ouvir inúmeros podcast de assuntos variados. Dorameira desde de 2016, adora acompanhar e analisar narrativas e conteúdos que fazem parte da criação de um drama (elenco, filtros usados, fotografia, simbologia das cenas e outros).

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