Vale a pena assistir o reality japonês The Boyfriend 2?

Vale a pena assistir o reality japonês The Boyfriend 2?

A primeira temporada de The Boyfriend, lançada em 2024, foi um sucesso. O reality permaneceu por semanas no Top 10 da Netflix, incluindo no Japão, seu país de origem, algo que, por si só, já diz muito. Um reality de namoro gay alcançar esse nível de popularidade dentro de um mercado ainda tão conservador mostrou que o programa tocou em algo maior do que apenas romance. Não é exagero dizer que The Boyfriend abriu uma porta. E quando uma porta dessas se abre, as expectativas para o que vem depois se tornam quase sufocantes.

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Agora, dois anos depois, o programa retornou com sua segunda temporada, carregando não apenas novos participantes, mas o peso de tudo o que a primeira construiu. E é exatamente isso que este texto se propõe a fazer: olhar para The Boyfriend 2 sem spoilers, mas com honestidade. Será que The Boyfriend 2 atendeu todas as expectativas da primeira temporada? Vale a pena assistir? O que o programa tem de especial e onde ele tropeça?

Vamos conversar!

Inverno, convivência e encontros

Dez homens passam dois meses vivendo juntos em Hokkaido, no norte do Japão, durante o inverno. Eles ficam em uma cabana chamada Green Room, onde dividem o dia a dia, desde as refeições até os momentos de descanso, enquanto tentam se conhecer e formar vínculos românticos.

Além da convivência, o grupo também trabalha em um food truck de café, revezando-se em duplas. Essa atividade cria situações em que eles precisam conversar, cooperar e passar tempo juntos fora da casa.

Com idades entre 20 e 40 anos, os participantes entram no programa buscando não apenas encontros, mas a possibilidade de construir uma relação que continue depois da experiência. Ao longo de quinze episódios, a proposta é acompanhar como essas conexões se formam, ou não, dentro desses meses compartilhados.

O que The Boyfriend 2  tem de especial?

1. O tempo de dois meses 

Se a primeira temporada do reality dedicava um mês para os participantes se conhecerem enquanto moravam juntos, essa segunda temporada dobra a quantidade de tempo e acompanha os meninos durante dois meses, e eu amei isso. Uma das minhas principais críticas a maioria dos reality de namoro é o fato de, muitos deles, gravarem tudo em uma semana ou poucos dias a mais, esse tempo curto sempre oferece a impressão de superficialidade. Ao se concentrar nos dois meses, The Boyfriend abre espaço para que as relações que ocorram ali passem a impressão de mais autenticidade, seja amizades ou romance, pois os participantes tiveram tempo para se conhecerem e conviverem juntos. A quantidade de tempo também permite que tudo fique mais otimizado, seja a quantidade de encontros que aumenta ou as pequenas reviravoltas que ocorre, isso também oferece ao programa aquela sensação de slice of life, que quem gosta do gênero conhece bem, que é aquela atrelada ao cotidiano, aos rituais diários de se dividir um lugar com outras pessoas. E a meu ver, os dois meses combinam também com a proposta que o reality tenta transmitir para essa segunda temporada que é um aspecto mais introspectivo e, talvez, mais melancólico  (mas nem tanto também né) que a anterior, refletido, principalmente, no cenário de neve. A vagarosidade do frio somado ao tempo para se conhecerem formam uma combinação encantadora. 

2. A formação de laços de amizade 

Sempre disse desde o post que fiz sobre a primeira temporada e, agora, reafirmo quando abordo a segunda, o melhor aspecto de The Boyfriend é os laços de amizade formados. Muito além de romance, o programa tem uma proposta que gosto muito que é não forçar os personagens a formarem romances ou a se apaixonarem, eles estão lá, convivendo juntos e podem ou não ter interesse amoroso uns pelos outros, o programa coloca dinâmicas que permitem isso, mas nenhuma forçada demais, que não deixam outra escolha para os participantes. Assim, mesmo que o romance sempre exista, o que prepondera são os laços de amizade, é muito bonitinho perceber que de estranhos os meninos vão se tornando amigos tão próximos, que extrapolam as fronteiras do programa e vai para vida. Uma escuta atenta, conselhos amorosos e da vida, a abertura com pessoas de vivências similares, isso faz com que The Boyfriend 2 crie um espaço caloroso e acolhedor, que chega em quem está assistindo. Eles parecem se dar muito bem e não há nenhuma rivalidade que ultrapasse o limite; podem até gostar da mesma pessoa, mas, acima disso, se respeitam e se permitem se divertir juntos. O diálogo está sempre lá, as conversas sempre presentes. E o melhor é que os participantes saem do programa com uma sensação de que encontraram mesmo um lugar acolhedor e pessoas que se tornam suas redes de apoio, a segunda temporada trouxe isso de forma muito latente. Eu poderia só acompanhar eles sendo amigos durante muito tempo.

3. A cinematografia belíssima

A primeira coisa que pensei quando cliquei no primeiro episódio da segunda temporada de The Boyfriend 2, foi: “Tinha me esquecido como a cinematografia desse programa é bonita!”, sempre digo que a sensação de estarmos assistindo uma série, um drama, está sempre lá por conta das paisagens bonitas, dos enquadramentos, da trilha sonora, da produção que tenta ser impecável nesses detalhes que propiciam um clima especial para o reality. Nessa temporada, somos transportados para o inverno frio de Hokkaido, então a neve está sempre lá, as estações de esqui, o lago congelado, as atividades na neve, os aquecedores, a sauna, o interessante é o contraste entre esse ambiente externo frio e a casa acolhedora onde eles convivem.  Em outras palavras, essa cinematografia invernal criar esse contraste simbólico entre o frio do cenário e a tentativa de construir conexões genuínas, assim, os silêncios e frio tem peso, assim como as palavras e cada aproximação que parece atravessar o frio antes de se tornar calor, como se cada conexão fosse um refúgio contra o clima congelante, ou as questões internas não resolvidas.  É por isso que gosto da escolha do local e do trabalho cinematográfico aqui, porque além de bonito, ele parece ter sentido com a proposta do reality, sem contar que os participantes também se enveredam por outros locais da região, que mostram outros cenários.

4. Os casais variados

Na verdade, esta temporada The Boyfriend mostra pro público três casais diferentes, eles acontecem e tem seu foco em momentos distintos do reality, mesmo que vejamos partes de seu desenvolvimento ao longo do programa. O que acontece é que esses casais têm dinâmicas diferentes entre si, o que oferece melhor margem para o telespectador se encantar ou gostar de pelo menos um deles. Temos aquele mais melancólico, cheio de conversas sérias e assuntos não resolvidos, temos o mais fofinho e caloroso, e aquele que é mais como uma paixão física entre completo opostos. Eu pude me entreter com essa variedade, que me propiciou alguns momentos que achei muito legais de assistir, não são aqueles surtos da primeira temporada, mas a maioria deles me prenderam em suas dinâmicas singulares e momentos especiais. Outro ponto que vale ser destacado é que essa temporada tem muito mais desses momentos românticos porque tem mais casais, mas também porque as cenas de beijo e o contato parece bem mais evidente aqui, o programa não tenta muito segurar ou esconder isso. E isso é um bônus porque parece que estamos acompanhando pessoas realmente envolvidas à medida que o programa transcorre. 

5. Participantes cativantes com suas próprias trajetórias 

Mas o que faz The Boyfriend 2 funcionar mesmo, é um elenco recheado de muito carisma, eu simplesmente adorei a maioria dos participantes, poucos realitys eu pude gostar muito de tantas pessoas assim e ter mais de um favorito. A singularidade na personalidade de cada um, fez com que eles tivessem encantos próprios e distintos, assim quanto mais os episódios passam, mas me senti apegada aos participantes e suas peculiaridades (meus favoritos Jobu e Bomi <3). É muito interessante acompanhar os participantes do reality porque parecem reais, não versões plastificadas de si mesmos ou que estão apenas posando para câmera, a maioria passa essa sensação de autenticidade e de pessoas que seriam legais de conviver. É importante que um reality gere esse tipo de apelo no público, foi ele que me fez continuar para saber  como se desenrolaria a trajetória deles, mas também porque me passava sensações boas acompanhá-los com seus erros, inseguranças e acertos. Eu simplesmente queria me tornar amiga deles!

6. A trajetória de cada participante

A trajetória de cada participante se torna também um motor para o programa, já disse que The Boyfriend não está somente preocupado com o romance, gosto que ele dê um arco narrativo para cada um deles, mesmo alguns aparecendo menos e outros mais, vejo que cada um teve seu espaço para abordar seus próprios sentimentos e para mostrar fragmentos de si mesmos.  Mesmo não achando um romance, o programa sintetiza a trajetória de crescimento dos participantes em sua narrativa, seja o garoto que tenta aprender a formar laços e confiar, o que procura coragem para se assumir, o que busca não se isolar mais tanto, o homem que busca ter respostas depois de um relacionamento de 15 anos, existe muitas vezes mais de um objetivo que engloba esses participantes no reality, é por meio deles que vemos partes de seus traumas, mágoas e modos de agir. No fim do programa, fica mais prazeroso constatar que se não acharam todas as respostas que queriam , pelo menos encontraram uma parte deles ou se colocaram e agiram na trilha para encontrá-lo. É a sensação de que podemos crescer com cada experiência que vivemos, que podemos contar com pessoas para encontrar algumas respostas que não sabemos e que os primeiros passos somos nós que temos que dar.

7. A abordagem de temáticas relevantes

Sempre serei uma eterna admiradora da proposta de The Boyfriend de ser um reality de namoro gay e  utilizar isso para abordar temáticas tão importantes, ele se insere dentro da discussão LGBTQI+ na sociedade ao mostrar esses participantes conversando sobre suas experiências, seus desafios e ao formar um sentimento de comunidade com tudo isso. É como uma vitrine que contribui para colocar em evidência a agência desses sujeitos, que permite o público chegar mais perto e ter empatia por suas vivências. Não de uma forma fatalista ou dramatizada, mas de uma forma real, com as conversas sérias que tem, mas também ao mostrar seus amores e divertimentos. Creio que essa temporada oferece mais espaço até do que anterior para tocar em assuntos como casamento gay, sair do armário e todas as questões em torno disso e como essa experiência vai muito além de se assumir, mas também conviver com o peso aos olhos da sociedade e da família.

Onde o reality tropeça…

1. O começo lento e difícil de se apegar

Sou sempre sincera e se eu afirmar que essa segunda temporada me cativou desde o primeiro segundo eu estaria mentindo, na verdade, em determinado momento, eu cheguei a pensar até dropar ela, por alguma razão que não entendo, talvez o fato de ter gostado da primeira temporada, continuei assistindo e passei a gostar. Mas, isso foi definitivamente um processo! Primeiramente, a primeira impressão que The Boyfriend 2 me passou foi a artificialidade. Ok, eu sei que os reality são, no geral, artificiais mesmo em alguma medida, mas o principal é: ou eles abraçam essa artificialidade e não tem vergonha de serem escancarar isso ou eles se esforçam de forma eficiente para camuflar, os primeiros episódios não foi nenhum dos dois casos. Particularmente, me incomodei com a ideia que o programa teve de colocar pessoas que já se conheciam de fora dentro do reality, parecia ensaiado, por que se alguns deles, não todos, já se conheciam então ficou pra mim a sensação de tudo premeditado. Segundo, tenho preferência por acompanhar estranhos se conhecendo, a conexão que nasce do desconhecido, com algumas pessoas familiares umas às outras, onde isso fica? parecia um jogo escancarado de cartas marcadas. Foi difícil me desvencilhar da imagem do falso. Somado a isso, o começo mescla a lentidão com a proposta de laços antigos e ghosting que pouco me atraía. Como venci isso? o reality foi melhorando com os episódios e ficando de alguma forma um pouco mais convincente. Mas não são os primeiros episódios atrativos, eu só fui me prender mesmo lá pro 6 ou 7, não lembro exatamente qual o número, mas se passaram cerca de 5 episódios com certeza para isso acontecer.

2. O tempo de tela desproporcional

Além dos pontos que elenquei no tópico anterior, os 10 primeiros episódios digamos assim, e principalmente os iniciais, dedicam um tempo maior a um dos três casais que mencionei anteriormente e eu, sinceramente, achava a dinâmica deles entediante, principalmente no início, que os fã me perdoem, porque depois eu também passei a simpatizar um pouco mais com o casal e é aí que o programa não ficou tão difícil de assistir. Mas o puxa e empurra, as conversas longas e as diversas situações do passado que eles tinham que resolver entre si, a edição do programa alargou isso demais, podia ter sido mais mitigada e colocar mais também dos outros participantes, equilibrado melhor, isso tornaria o consumo dos cinco primeiros episódios mais fácil. Não vou dizer que não fiquei curiosa para saber o que aconteceria com eles e como foi o envolvimento passado, essa curiosidade foi o que me prendeu. E sendo justa, além das partes maçantes que eles tinham, a química estava lá e protagonizaram algumas cenas bonitas. No entanto, o tempo de tela desproporcional realmente cansa o telespectador e satura a imagem do público, o segredo não é fazer o público engolir goela abaixo e de forma tão rápida o casal, mas suavemente permite o espectador enxergar e ser cativado por eles. Concluo que a introdução e apresentação inicial das relações e dos participantes é realmente um problema aqui. A produção pode ter ficado com medo de nada dar certo, mas acho que ela tinha material suficiente para ter otimizado isso.

3. As cenas cortadas

Atrelado a isso tudo, temos o fato de que são dois meses de convivência e imagine como foi difícil para a produção condensar tudo isso em 15 episódios. Penso que eles talvez tivessem ficado com medo de não ter material suficiente, e por isso houve uma extensão, existe uma pressão, querendo ou não, pelo sucesso da primeira temporada e o fato dessa manter a sucessão de forma boa. O saldo que fica é que muitas cenas foram cortadas, em todos os realitys são, mas aqui acho que teria sido legal ver mais de alguns pontos, alguns participantes e alguns casais, momentos fofos de alguns foram cortados e a progressão das aproximações não se mostra nítida. Assim, são perdidas para o telespectador muitas conversas importantes, amizades legais e laços que o acontecer do laços sendo formados. O próprio food truck aparece quase como um personagem coadjuvante, eles trabalharem e escolherem alguém para ir junto o que mostra o interesse ainda é uma sacada genial, mas esses momentos de trabalho e interações são tão condensados, talvez porque também não ocorra nada de interessante neles também né, vai saber. Mas fica sim, aquela sensação geral que o telespectador ficou de fora de algo, acho que isso é o mal que os realitys no geral sofrem.

E o veredito é…

Ainda gosto mais da primeira temporada, talvez por ela ter me prendido desde o início ou pelo puro apego de ter sido a minha porta de entrada, mas pensando em The Boyfriend 2 como sucessora, confesso que fiquei surpreendida. Deixa eu explicar direito: primeiro, me decepcionei e tive certeza que iria odiar. Não gostei dos episódios iniciais e senti aquele estranhamento natural. Mas, conforme avançava, meu carinho pela temporada crescia; eu ficava a cada episódio mais derretida, como a neve diante do calor.

Então, minha resposta é sim: vale a pena assistir! Mas com um aviso: vá com o desprendimento de quem sabe que encontrará participantes diferentes. No começo, é inegável a tentação de comparar com a primeira, mas é preciso manter a mente aberta e o coração pronto para encontrar histórias adoráveis e únicas à sua própria maneira. E para quem ainda não viu a primeira e quer começar da segunda, minha dica é sempre: comece pela primeira temporada!. Para mim, foi definitivamente uma boa segunda temporada, mesmo que tenha defeitos e tropeços, eu terminei com a sensação que poderia acompanhar eles por mais episódios. The Boyfriend 2 arranca risadas e emociona, falando sobre aquelas conexões que pareciam perdidas, mas que se reacendem mesmo no clima gelado e diante das intempéries do caminho. 

The Boyfriend 2 está disponível para ser assistido na Netflix!

Brenda Mendes

Historiadora, professora e criadora de conteúdo digital, está sempre em busca de uma nova história para desbravar e aquecer seu coração, apaixonada por doramas de romance e slice of life, é uma leitora ávida há mais de 10 anos.

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