Primeiras impressões de 100 Dias de Mentiras

Primeiras impressões de 100 Dias de Mentiras

Normalmente, faço minhas primeiras impressões depois de assistir aos quatro primeiros episódios de um drama, mas 100 Days of Lies (100 Dias de Mentiras), disponível na Netflix, despertou em mim a vontade de escrever imediatamente após assistir aos dois primeiros. Isso porque achei esses episódios bastante completos como introdução à história. Eles despertam uma curiosidade quase instantânea e nos deixam com aquela vontade de continuar assistindo para entender o que está acontecendo e, principalmente, quem são aquelas pessoas que estamos conhecendo.

Assim que dei play no primeiro episódio, fui transportada para uma estação de trem, onde vemos a protagonista roubar pessoas discretamente em meio à multidão. Logo quis saber quem ela era, como vivia e o que faria em seguida. O mistério em torno da personagem chama a atenção desde esse primeiro momento, mas não é o único elemento que me prendeu. Existe também todo o contexto histórico que envolve a narrativa. Estamos falando de um drama ambientado durante a ocupação japonesa na Coreia, um período brutal da história coreana, marcado pela dominação, pela violência e pela negação de direitos. Há diferentes interesses em jogo, relações de poder e personagens que transitam entre idiomas como coreano, inglês e japonês. Aliás, achei essa questão linguística muito bem inserida na trama. Dá para perceber o preparo dos atores e o cuidado da produção na construção desse aspecto da história.

Todo o movimento em torno da estação de trem e dos acontecimentos que se desenrolam a partir dali funciona como um fio condutor para apresentar os personagens e conectar suas histórias. As cenas se conectam de uma maneira que nos mantém atentos, sempre querendo saber o que acontecerá em seguida. Há um clima de perseguição e espionagem que não é apresentado de forma escancarada, nem depende de um ritmo acelerado para funcionar. Ele está ali, atravessando as situações, os gestos e os encontros, como algo próprio daquele universo.

Vi algumas pessoas comentando que o primeiro episódio não as prendeu ou que o ritmo era lento demais, mas, sinceramente, não tive essa impressão. Fiquei completamente imersa na atmosfera que o drama constrói, especialmente pela maneira como os detalhes visuais, as ações da protagonista e o contexto histórico se completam. Para mim, a história não precisava correr, porque havia muito a ser apresentado, inclusive nas entrelinhas. E acho que essa é uma das coisas que mais me agradaram nesses dois primeiros episódios: a sensação de que existe muito mais por trás daquilo que estamos vendo.

Depois de acompanhar as ações da personagem de Kim Yoo Jung, conhecemos brevemente o personagem de Jinyoung, que também desperta curiosidade. Nesse primeiro momento, ainda não sabemos exatamente quem ele é ou o que faz. O que conseguimos perceber é sua personalidade reservada, séria e resoluta. Enquanto a personagem de Yoo Jung é uma batedora de carteiras, dinâmica, espontânea e aparentemente livre, o personagem de Jinyoung transmite seriedade e contenção. São personalidades bastante diferentes, e o primeiro encontro entre os dois acontece justamente quando ela tem a ousadia de roubá-lo sem que ele perceba.

E esse encontro é cheio de química! Não me surpreendi, porque, pelo material divulgado antes da estreia, eu já esperava que a química entre os dois atores fosse muito boa. E é mesmo. Consigo sentir a tensão entre eles, essa espécie de fio que começa a ligá-los, mesmo que ainda não saibamos exatamente aonde isso vai nos levar. O que mais me interessa, porém, é que esse primeiro episódio não se limita a apresentar duas figuras que parecem interessantes juntas. Ele também nos permite perceber que ambos têm camadas, contradições e complexidades que ainda serão exploradas. Existe algo por trás daquilo que cada um escolhe mostrar ao mundo. 

Afinal, estamos falando de dois adultos que um dia foram duas crianças de Joseon, que precisaram conviver com a fome e a miséria em meio a todo o caos provocado pela ocupação japonesa da Coreia. E, se pensarmos no que nos foi apresentado nesses dois episódios, talvez seja possível perceber que ambos convivem, de alguma maneira, com a sensação de não pertencer a lugar nenhum.

Porque como saber onde pertencemos quando aquilo que conhecemos nunca pareceu, de fato, um lar? Como encontrar abrigo em um país que já não parece reconhecer você como parte dele? E como assegurar a própria identidade quando ela é constantemente negada, diminuída e colocada em uma posição de inferioridade? Diante de tudo isso, como sobreviver?

Acho que 100 Dias de Mentiras começa a trabalhar justamente com essas questões. Talvez o drama queira nos dizer que o disfarce e a mentira podem se tornar as únicas coisas que nos restam quando estamos tentando sobreviver, quando nos vemos sozinhos, quando lutamos por algo ou quando temos medo de sermos abandonados. Às vezes, esconder quem somos não significa necessariamente renunciar à nossa identidade, mas encontrar uma maneira de continuar existindo em um mundo que parece não nos dar espaço para isso.

Acredito que 100 Dias de Mentiras também consegue nos apresentar, nesses dois primeiros episódios, uma trama que combina ação, espionagem, luta pela independência coreana e movimentos organizados de resistência, sem deixar de expor a brutalidade e a crueldade do domínio japonês. No segundo episódio, principalmente, temos cenas muito emocionantes nesse sentido. A maneira como vidas inocentes se tornam instrumentos de dominação e como a infância é destruída diante de tudo isso me atingiu bastante.

É como viver em um limiar, em uma linha tênue entre aquilo que se é e aquilo que se pode demonstrar ser, entre sobreviver e perder a si mesmo. Uma condição que talvez só quem viveu naquele contexto histórico pudesse compreender em toda a sua dimensão. E o drama parece interessado em explorar justamente esse lugar de incerteza, em que a identidade, a liberdade e a própria possibilidade de ter um futuro são colocadas em risco.

Esses episódios também me fizeram pensar em como, por mais que alguém tente negar ou fugir daquilo que é, existem coisas que permanecem. Elas nos acompanham, atravessam nossas escolhas e, às vezes, voltam a nos assombrar, direta ou indiretamente. Não há como escapar completamente quando o que está em jogo é algo que atravessa a nossa história, a nossa memória e a nossa própria existência. Algo que corre em nossas veias, mas que também foi construído pelas experiências que nos antecederam.

E, mesmo em meio a todo esse cenário de caos, a dinâmica entre os dois protagonistas consegue ser divertida à sua própria maneira. A irreverência da personagem de Yoo Jung e a seriedade do personagem de Jinyoung formam um contraste que funciona muito bem. Já quero ver mais dos dois, acompanhar o desenrolar dessa ligação e descobrir até onde ela vai nos levar. Porque tenho a impressão de que essa relação ainda vai dar muito pano para manga, principalmente quando os sentimentos, as identidades e as ambições individuais dos dois começarem a se misturar cada vez mais à trama política.

Quando tudo isso estiver embaralhado, quando as escolhas pessoais deles estiverem tão entrelaçadas às circunstâncias históricas que os cercam, imagino que não nos restará muita coisa além de torcer por eles ou nos enraivecer com suas decisões. E talvez seja justamente isso que torne essa relação tão interessante: não estamos diante de personagens que existem isolados do mundo ao seu redor. O contexto em que vivem também interfere naquilo que podem ser, nas escolhas que fazem e nas relações que constroem.

Enquanto assistia a 100 Dias de Mentiras, tive fortes lembranças de Youth of May, outro drama coreano que me marcou bastante. E já adianto que, naquele, chorei muito. Não sei se essa comparação se confirmará ao longo dos episódios, mas a sensação de estar diante de uma história em que o amor, a vida e os desejos individuais podem acabar atravessados pela violência política me fez pensar imediatamente nele.

Por isso, já começo a me preparar emocionalmente, porque tenho a impressão de que 100 Dias de Mentiras pode nos entregar uma história capaz de deixar o coração na mão e, ao mesmo tempo, despedaçá-lo. Ainda é cedo para saber como tudo vai se desenvolver, mas fazia tempo que uma produção coreana não despertava em mim tanta empolgação logo nos primeiros episódios. E acho que isso diz muito sobre o quanto essa introdução funcionou para mim.

Espero não me decepcionar. Desde já, estou torcendo para que, até o episódio final, todos permaneçam vivos, embora uma parte de mim já desconfie de que essa talvez seja uma expectativa difícil de sustentar. Mas também espero que, ao longo dessa jornada, os protagonistas tenham a oportunidade de descobrir coisas preciosas sobre si mesmos, sobre o outro e sobre o país que os cerca. Porque, se esses dois episódios já me fizeram pensar tanto sobre identidade, pertencimento e sobrevivência, estou curiosa para descobrir o que mais essa história ainda tem a dizer.

Por enquanto, são apenas dois episódios, mas já estou completamente envolvida. E, se depender dessa primeira impressão, 100 Days of Deception tem tudo para ser uma daquelas histórias que me fazem querer escrever não porque preciso, mas porque simplesmente não consigo guardar para mim tudo o que senti enquanto assistia.

Brenda Mendes

Historiadora, professora e criadora de conteúdo digital, está sempre em busca de uma nova história para desbravar e aquecer seu coração, apaixonada por doramas de romance e slice of life, é uma leitora ávida há mais de 10 anos.

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