Em Youth of May, quem foi mais egoísta? Uma análise completa do círculo principal

Em Youth of May, quem foi mais egoísta? Uma análise completa do círculo principal

Quando Youth of May estreou, muitos espectadores esperavam um melodrama histórico centrado apenas em um romance trágico ambientado durante a ditadura militar sul-coreana. No entanto, à medida que a narrativa avança, o drama revela camadas muito mais densas ao abordar memória, silenciamento, coragem e escolhas individuais em meio ao caos coletivo. O grande diferencial da obra está justamente na construção moral de seus personagens, pois nenhum deles é completamente puro ou completamente condenável, todos erram tentando sobreviver.

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Ambientado em Gwangju, em maio de 1980, o drama transforma o contexto histórico da luta estudantil pela redemocratização em um microcosmo emocional onde amor, dever, família e medo colidem de maneira dolorosa. A cidade se torna palco de violência física e psicológica, mas o verdadeiro conflito acontece dentro deles, na batalha constante entre fazer o que é certo e fazer o que é possível.

Vamos olhar para cada um.

Hwang Hee Tae: o egoísmo de querer ser feliz

Interpretado por Lee Do Hyun, Hwang Hee Tae é apresentado como o orgulho acadêmico de Gwangju, o filho brilhante que carrega sobre os ombros o peso das expectativas de um pai poderoso e controlador. Desde cedo, sua vida foi moldada pelo medo de errar e ser descartado, especialmente por ser um filho fora do casamento, o que fez com que ele desenvolvesse uma postura aparentemente leve, mas profundamente marcada por traumas e silenciamentos.

O egoísmo de Hee Tae não se manifesta em maldade, mas na escolha insistente de buscar sua própria felicidade mesmo quando o mundo desmorona ao seu redor. Ao se apaixonar por Myeong Hee, ele decide lutar por esse amor mesmo sabendo das consequências políticas e familiares que poderiam recair sobre ela e sobre todos ao redor. Em diversos momentos, sua insistência em viver esse sentimento pode ser lida como coragem, mas também pode ser interpretada como um desejo intenso de não abrir mão da única coisa que o faz sentir vivo.

Ele é egoísta quando escolhe amar apesar do perigo, quando insiste em promessas mesmo diante da repressão brutal, e quando deseja, pela primeira vez, algo que não esteja alinhado com os planos de seu pai. Contudo, é justamente esse egoísmo humano que o torna profundamente real, pois em meio a um cenário onde todos lutam por sobrevivência, ele luta pelo direito de ser feliz.

Kim Myeong Hee: o egoísmo de se proteger do mundo

Vivida por Go Min Si, Kim Myeong Hee é uma enfermeira dedicada que aprendeu, ainda muito jovem, que levantar a voz pode custar caro. Após sofrer consequências sérias por defender aquilo em que acreditava, ela escolhe o silêncio como forma de autopreservação, traçando para si um caminho seguro que a levaria para longe da turbulência política e familiar.

Seu egoísmo se manifesta na tentativa constante de não se envolver, de não desviar da rota que traçou para si, mesmo quando isso significa fechar os olhos para sentimentos profundos ou para injustiças que continuam acontecendo ao seu redor. Ao aceitar substituir Soo Ryeon em um encontro arranjado, ela toma uma decisão prática, quase fria, que a coloca no centro de uma história que não deveria ser sua.

Quando Hee Tae entra em sua vida, seu maior conflito passa a ser interno, pois amar significa abandonar a segurança emocional que construiu ao longo dos anos. Em muitos momentos, ela tenta afastá-lo sob o argumento de protegê-lo, mas também existe ali o desejo de não sofrer novamente. Seu egoísmo é o de quem tem medo, o de quem aprendeu que sobreviver exige renúncias, e ainda assim decide, pouco a pouco, arriscar tudo por algo que pode destruí-la.

Lee Soo Ryeon: o egoísmo das raízes privilegiadas

Interpretada por Geum Sae Rok, Soo Ryeon é a jovem ativista que deseja uma sociedade mais justa, mas que carrega consigo as contradições de ter sido criada em um ambiente de privilégios. Filha de um homem influente, ela usufrui das regalias oferecidas pelo sistema que critica, e muitas vezes oscila entre coragem e medo quando confrontada com as consequências reais de suas escolhas.

Seu egoísmo aparece nas decisões impulsivas que acabam afetando outras pessoas, especialmente quando tenta escapar de responsabilidades ou quando deixa que outros assumam riscos em seu lugar. Ao pedir que Myeong Hee vá em seu encontro arranjado, ela transfere uma situação delicada para a amiga, atitude que desencadeia toda a narrativa central do drama.

Entretanto, seu egoísmo não é estático. Ao longo da história, ela enfrenta o peso de suas escolhas e passa a compreender que não pode lutar por justiça apenas em discurso. Quando o mundo cai aos seus pés, ela finalmente entende que fazer algo, mesmo que pequeno, é melhor do que permanecer confortável atrás dos muros de sua casa. Sua jornada mostra que reconhecer o próprio egoísmo também é um ato de amadurecimento.

Lee Soo Chan: o egoísmo da cegueira confortável

Vivido por Lee Sang Yi, Lee Soo Chan é o jovem que retorna para casa acreditando em um futuro perfeito já traçado, onde assumiria os negócios da família e viveria sem grandes abalos. Criado para priorizar a família acima de tudo, ele cresce dentro de uma bolha que o impede de enxergar as injustiças que acontecem além dos muros de sua casa.

Seu egoísmo é silencioso e muitas vezes inconsciente, pois ele escolhe não ver aquilo que não o afeta diretamente. Enquanto estudantes são reprimidos e vidas são destruídas, Soo Chan tenta manter sua rotina intacta, como se fosse possível separar sua felicidade do sofrimento coletivo. Sua maior falha não é a crueldade, mas a omissão.

Quando finalmente é confrontado pela realidade e sente na pele as consequências do regime, ele percebe que permanecer neutro também é uma escolha. Seu crescimento acontece no momento em que entende que não pode continuar apenas assistindo, e que fazer alguma coisa, por menor que seja, é melhor do que permanecer confortável na ignorância.

Kim Kyung Soo: o egoísmo da sobrevivência

Interpretado por Kwon Young Chan, Kim Kyung Soo representa o lado mais doloroso do conflito, o dos soldados obrigados a escolher entre obedecer ordens ou preservar a própria consciência. Alistado à força após participar de manifestações estudantis, ele se vê preso entre seus valores pessoais e a obrigação de cumprir comandos que custam vidas inocentes.

Seu egoísmo é o da sobrevivência, pois em meio ao fogo cruzado, ele precisa decidir se proteger civis e arriscar sua própria vida, ou se obedece e preserva sua existência física. Em um contexto onde matar ou morrer se torna regra, julgá-lo de maneira simplista seria ignorar a complexidade moral imposta pela ditadura.

Kyung Soo carrega arrependimentos profundos e cicatrizes invisíveis, vivendo o dilema constante sobre o que significa ser uma pessoa boa em um sistema que transforma escolhas em condenações. Seu arco reforça que, em tempos de repressão, até mesmo a sobrevivência pode ser vista como um ato egoísta.

Com isso vemos…

Que em Youth of May o egoísmo não é apresentado como vilania, mas como reflexo do medo, do amor, da criação familiar e das circunstâncias históricas. Cada personagem, à sua maneira, escolhe a si mesmo em algum momento, seja ao amar apesar do risco, ao se calar para sobreviver, ao usufruir de privilégios ou ao ignorar injustiças.

Não existe apenas “quem foi mais egoísta”. Existe quem escolheu amar. Quem escolheu sobreviver. Quem escolheu não ver. Quem escolheu lutar tarde demais. Em meio à violência da ditadura, todos precisaram decidir entre coragem e autopreservação, e é nessa linha tênue que o drama constrói sua poesia dolorosa.

Assim como maio se foi, as escolhas deles permaneceram como memória. E talvez a pergunta mais honesta não seja quem foi mais egoísta, mas se nós, colocados no mesmo contexto, teríamos sido diferentes.

Alice Rodrigues

Estudante de Comunicação social – Jornalismo, e atuando como social media, criadora de conteúdo digital e assessora de imprensa. Além de amar conhecer novas culturas, é viciada em ler e ouvir inúmeros podcast de assuntos variados. Dorameira desde de 2016, adora acompanhar e analisar narrativas e conteúdos que fazem parte da criação de um drama (elenco, filtros usados, fotografia, simbologia das cenas e outros).

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