Dynamite Kiss: Quais foram os tropeços que o drama deu?
Dynamite Kiss estreou com um impacto imediato, um beijo explosivo logo no primeiro episódio que prometia (ainda com palavras dos próprios atores) subverter clichês e reinventar a comédia romântica, e, por um breve momento, parecia cumprir essa promessa pela sua química energética (que foi uma das melhores do ano, na minha opinião) e ritmo contagiante. No entanto, à medida que o k-drama se desenrola, aquilo que inicialmente funcionava como faísca – uma narrativa aparentemente fresca e uma dinâmica divertida entre protagonistas – revela ser apenas superfície em um roteiro que, com o tempo, se afunda em inconsistências, desvios narrativos desnecessários e erros flagrantes de continuidade dramática que comprometem a experiência emocional de quem assiste.
Uma das minhas maiores reclamações é justamente a sensação de que a história perde rumo depois dos primeiros episódios e depois da metade decai drasticamente, trocando potencial por confusão. O arco inicial, centrado no romance de “paixão ao primeiro beijo” entre Go Da Rim e Gong Ji Hyeok, dá lugar a uma série de tropeços narrativos que não apenas arrastam a história, como mal-entendidos repetidos que se prolongam por episódios a fio sem gerar reflexão significativa, mas também introduzem subtramas que parecem colocadas à força, sem função clara para o desenvolvimento emocional ou temático dos personagens.
Não é apenas o ritmo irregular que me frustrou, ao longo do k-drama houveram arcos que surgiram e desapareceram sem uma resolução satisfatória, como o subplot da irmã (que nem fechado é) ou eventos dramáticos como uma exposição pegando fogo ou um acidente de carro seguido de amnésia que, não só resvalam em clichês como o de um “makjang” (subgênero de K-dramas com tramas exageradas, absurdas e cheias de reviravoltas dramáticas), mas também não contribuem para aprofundar os protagonistas ou suas relações, deixando a impressão de que a narrativa coleta ideias soltas em vez de tecê-las de forma coesa.
Esse problema de coesão reflete ainda em erros de continuidade dramática e lapsos de lógica interna, visto que os personagens tomam decisões que contradizem suas motivações anteriores, situações estendem-se sem necessidade aparente, e reviravoltas emocionais são construídas sobre bases frágeis, como quando a protagonista insiste na mentira que poderia ser facilmente esclarecida, gerando conflitos artificiais que se tornam cansativos para quem assiste (Sério, eu não aguentava mais a mentira).
Além disso, há um descompasso evidente no desenvolvimento dos personagens, que em muitos momentos mudam de personalidade, estilo ou atitude sem que haja uma progressão emocional justificada pela história.
O uso de clichês repetitivos também é motivo de erro, pois mesmo que alguns elementos – como o beijo precoce ou o relacionamento forjado – pudessem ter sido refrescantes, eles logo recaíram em convenções desgastadas, incluindo enredos clichês de amor-inimigo, equívocos prolongados, a irmã que quer derrubar o irmão a todo custo e soluções românticas previsíveis que, em vez de intensificar a experiência, a tornam genérica e, por vezes, irritante.
O final, em particular, me gerou muita frustração por empilhar reviravoltas – amnésia, arco desnecessário de subplot, saltos temporais e resoluções apressadas – sem entregar os momentos que a história prometera ao longo de toda a sua primeira metade. Achei que as cenas emocionais importantes não foram devidamente desenvolvidas, e momentos que deveriam ser conclusivos e impactantes acabam sendo tratados de forma quase apressada, como se a produção tivesse ficado sem espaço narrativo para resolver seus próprios conflitos.
Também vale pontuar que, por trás da estética visual atrativa e da química entre os atores – que é um fator inegável -, existe uma estrutura dramática inflada, que emprega música romântica excessiva, longos trejeitos de reação em cena e cenas alongadas que não acrescentam conteúdo emocional real ou ajudam no desenvolvimento da trama ou personagens, apenas esticam o tempo de tela sem justificação narrativa convincente. Também não posso deixar de falar dos inúmeros erros de continuidade, como logo após ela cair na água com os papéis não só ela aparece seca da cabeça aos pés, mas os papéis também, ou quando ela salva ele do fogo e ele não só continua com o cabelo intacto, mas não tem sinal de sujeira de fuligem no rosto ou terno claro dele, foram inúmeros outros momentos.
Por fim, o problema – na minha visão – não está na falta de momentos agradáveis, porque isso entregaram muitos e uma química entre os protagonistas que realmente pode ser considerada uma das melhores do ano, mas no fato de que esses momentos não se sustentam estruturalmente, e não se conectam a uma progressão dramática que faça sentido dentro do universo da história. O que poderia ser uma comédia romântica vigorosa e original se torna, para muitos, um drama de altos e baixos em que excelência técnica não se traduz em coerência narrativa, e intensidade superficial não se traduz em profundidade emocional, deixando a sensação de que, por trás do título e do hype, havia muito menos substância do que o público esperava.