The Good Bad Mother: a reconstrução de uma relação marcada pelo amor e pela dor
“Se eu não for dura com você, o mundo será”
O que faz uma mãe ser uma boa mãe? Criar um filho para ser forte? Sacrificar a própria felicidade em nome dele? Ou oferecer o amor e o acolhimento que ele precisa para enfrentar os desafios da vida? É justamente a partir desses questionamentos que The Good Bad Mother constrói sua narrativa. Lançado em 2023 pela JTBC e distribuído internacionalmente pela Netflix, o drama de 14 episódios acompanha a história de Jin Young Soon (Ra Mi Ran) e Choi Kang Ho (Lee Do Hyun), uma mãe e um filho unidos por um amor inquestionável, mas também separados por anos de mágoas, expectativas e dores que jamais foram devidamente verbalizadas.
Ao longo de sua trajetória, a produção nos apresenta uma história que vai muito além da maternidade. Embora o relacionamento entre Young Soon e Kang Ho seja o centro da narrativa, o drama também fala sobre traumas geracionais, sobre a dificuldade de expressar sentimentos e sobre como pessoas que se amam podem acabar ferindo umas às outras sem sequer perceber. Em vez de oferecer respostas simples, a obra prefere explorar as contradições humanas, mostrando que amor e sofrimento muitas vezes caminham lado a lado.
Young Soon é uma personagem que me chamou atenção desde os primeiros episódios justamente por fugir da imagem tradicional de mãe afetuosa que estamos acostumados a encontrar nos dramas. Após perder o marido de forma trágica e precisar criar o filho sozinha, ela passa a enxergar o mundo como um lugar cruel, onde apenas os mais fortes conseguem sobreviver. Por esse motivo, decide dedicar toda a sua vida a preparar Kang Ho para enfrentar uma realidade que acredita ser implacável. O problema é que, na tentativa de protegê-lo da dor, acaba se tornando uma das principais fontes dela.
Mesmo quando suas atitudes parecem excessivamente severas, é impossível não perceber que tudo o que Young Soon faz nasce do amor. Diferente de mães que demonstram afeto através de palavras gentis ou gestos carinhosos, ela expressa seus sentimentos através do trabalho, do sacrifício e da disciplina. Seus dias são consumidos pela fazenda de porcos, pelas preocupações financeiras e pela obsessão de garantir ao filho um futuro melhor do que aquele que ela teve. Entretanto, o drama deixa claro que boas intenções nem sempre resultam em boas escolhas.
É interessante observar como a personagem passa boa parte da narrativa carregando o peso de uma vida que nunca lhe permitiu sonhar. Enquanto outros personagens falam sobre felicidade, Young Soon fala sobre sobrevivência. Enquanto outros desejam conforto, ela deseja segurança. E talvez seja justamente por isso que tenha tanta dificuldade em compreender os sentimentos do filho. Para alguém que passou a vida inteira lutando para continuar de pé, vulnerabilidade parece um luxo que não pode ser permitido.
“Tudo o que fiz foi para que você tivesse uma vida melhor do que a minha”, Jin Young Soon
Se Young Soon é uma mulher moldada pelas dificuldades, Kang Ho é o resultado direto dessa criação baseada no medo e na distância afetiva. Desde pequeno, ele aprende que precisa ser perfeito, que não pode decepcionar a sua mãe, que fracassar não é uma opção. E embora consiga alcançar tudo aquilo que ela sonhou para ele, o sucesso vem acompanhado de um preço alto. Quando o encontramos já adulto, Kang Ho é um promotor brilhante, respeitado e extremamente competente. Entretanto, por trás dessa imagem existe alguém incapaz de demonstrar emoções com naturalidade. Assim como a mãe, ele aprendeu a esconder suas fragilidades e a enfrentar os problemas sozinho. O menino que cresceu ouvindo que precisava ser forte se transformou em um homem que não sabe como pedir ajuda.
Uma das coisas que mais gostei na construção do personagem é a forma como ele parece estar constantemente dividido entre aquilo que deseja e aquilo que acredita que deve fazer. Mesmo cercado por pessoas que o amam, Kang Ho transmite uma sensação permanente de solidão. É como se tivesse passado tantos anos tentando corresponder às expectativas dos outros que nunca teve a oportunidade de descobrir quem realmente era.
Após o acidente que provoca sua regressão mental, somos apresentados a uma versão completamente diferente do personagem. O homem frio e calculista desaparece e dá lugar a uma criança inocente, curiosa e emocionalmente aberta. Essa mudança poderia facilmente soar artificial, mas Lee Do Hyun conduz a transformação com tanta sensibilidade que acabamos acreditando em cada uma das versões do personagem.
Diferente da mãe, que passou a vida inteira tentando controlar o futuro, Kang Ho passa boa parte da narrativa tentando fugir do passado. Enquanto Young Soon acredita que o amor precisa ser firme para proteger, Kang Ho aprende a associar amor a pressão e cobrança. É justamente essa diferença de percepção que faz com que os dois passem tantos anos sem conseguir se compreender verdadeiramente.
Ao mesmo tempo, os dois são incrivelmente parecidos. Ambos são teimosos, ambos escondem seus sentimentos e ambos acreditam que precisam carregar seus problemas sozinhos. Por trás dos conflitos constantes existe um vínculo inegável, mas também uma enorme dificuldade de comunicação. E é interessante observar como o drama utiliza essa relação para mostrar que o amor nem sempre desaparece quando as pessoas se machucam; muitas vezes ele continua existindo, apenas se torna difícil de reconhecer.
“Você sabe o quanto eu trabalhei para chegar até aqui?”, Choi Kang Ho
Se eu tivesse que definir The Good Bad Mother em poucas palavras, diria que este é um drama sobre pessoas que se amam profundamente, mas que passaram tanto tempo tentando sobreviver que esqueceram como demonstrar esse amor. A narrativa fala sobre maternidade, mas também sobre arrependimento, perdão e a possibilidade de reconstruir relações que pareciam irreparáveis.
Parte importante dessa reconstrução acontece graças à presença de Lee Mi Joo (Ahn Eun Jin), personagem que funciona como um contraponto interessante à relação entre mãe e filho. Enquanto Young Soon demonstra amor através de expectativas e cobranças, Mi Joo demonstra amor através da aceitação. Ela não exige que Kang Ho seja perfeito, não espera que ele corresponda a um ideal e tampouco tenta moldá-lo para que se torne alguém diferente. Mi Joo é uma personagem calorosa, gentil e extremamente paciente, mas reduzir sua importância ao papel de interesse amoroso seria injusto. Ela representa a possibilidade de um afeto mais leve, baseado na compreensão e não na exigência. Em diversos momentos, é através dela que Kang Ho experimenta uma forma de amor que não está associada ao medo de decepcionar alguém.
Outro aspecto que me chamou atenção foi a maneira como os gêmeos são utilizados dentro da narrativa. Além de proporcionarem alguns dos momentos mais leves da história, eles acabam simbolizando a infância que Kang Ho nunca teve. A convivência com as crianças permite que ele experimente sentimentos e situações que lhe foram negados durante boa parte da vida, funcionando quase como uma segunda oportunidade para viver aquilo que perdeu.
Da mesma forma, os moradores da pequena vila exercem um papel importante ao reforçar constantemente a ideia de comunidade. Embora sejam responsáveis por diversos momentos cômicos, eles também ajudam a construir a sensação de pertencimento que permeia a reta final do drama. Afinal, a cura dos personagens não acontece isoladamente, mas através das conexões que estabelecem com as pessoas ao seu redor.
Gostei particularmente da atuação de Ra Mi Ran, que consegue transmitir simultaneamente a dureza e a fragilidade de Young Soon. Em diversos momentos, bastava uma mudança em sua expressão para compreendermos tudo aquilo que a personagem não conseguia dizer em voz alta. Lee Do Hyun também entrega um trabalho impressionante ao interpretar versões tão distintas de Kang Ho sem perder a essência emocional do personagem.
Por mais que eu tenha amado o drama, não posso deixar de dizer que tenho algumas ressalvas em relação à narrativa. Alguns personagens secundários possuem potencial para receber um desenvolvimento maior, especialmente considerando a riqueza emocional da história principal. Além disso, determinados acontecimentos da reta final são resolvidos de forma relativamente rápida quando comparados ao cuidado dedicado ao restante da construção dramática.
Embora a trama possa parecer familiar em alguns momentos, sua execução é o que a diferencia. A narrativa evita transformar seus personagens em heróis ou vilões, preferindo apresentá-los como pessoas falhas tentando fazer o melhor que conseguem com aquilo que aprenderam ao longo da vida. A fotografia acolhedora da vila, a direção sensível e a trilha sonora emocional ajudam a construir uma atmosfera intimista que aproxima o espectador das dores e alegrias dos personagens.
The Good Bad Mother reúniu atuações extraordinárias, personagens complexos e uma narrativa que encontra beleza mesmo nos momentos mais dolorosos, a produção entrega uma reflexão sincera sobre maternidade, amor e perdão. Mais do que contar a história de uma mãe e um filho, o drama nos lembra que pessoas machucadas frequentemente acabam machucando outras pessoas, mas também mostra que nunca é tarde para tentar interromper esse ciclo.
“Nem todo amor sabe como ser demonstrado da maneira certa”
The Good Bad Mother está disponível na Netflix!