Teach You a Lesson: quando as soluções extremas parecem justificáveis
Quando a justiça institucional deixa de funcionar, a violência passa a parecer justiça? Existe algo extremamente irônico na ideia de combater a violência com a própria violência, principalmente quando, de um lado da moeda, estão adolescentes e, do outro, adultos já formados. Seria essa a receita para o caos? Talvez. Porém, em Teach You a Lesson (Aprendendo a Lição), esse parece ser apenas um princípio a ser seguido, um meio para alcançar determinado fim. Porque, no fim das contas, quando o sistema falha repetidamente, até mesmo as soluções mais extremas começam a parecer justificáveis.
E é justamente partindo desta ideia que a trama nos apresenta o Departamento de Proteção dos Direitos Educacionais, ou simplesmente DSE, um projeto criado pelo para restaurar a ordem em escolas que passaram a ser dominadas pelo caos de estudantes que seus professores já não conseguem controlar. Nesse cenário, a violência, o vício em jogos e atividades ilícitas, a pressão familiar, o bullying e diversos outros problemas ganham visibilidade, ao mesmo tempo em que a narrativa expõe as falhas do atual sistema educacional coreano. Com isso, mais do que apontar comportamentos problemáticos entre os jovens, Teach You a Lesson direciona seu olhar para uma estrutura que frequentemente se mostra incapaz de proteger alunos e professores, preferindo fechar os olhos para situações que se agravam dia após dia. É nesse espaço deixado pela omissão que o DSE surge, propondo soluções tão controversas quanto os problemas que pretende resolver.
À frente do departamento está Na Hwa Jin (Kim Moo Yeol), um inspetor conhecido por seus métodos pouco ortodoxos e por uma convicção quase inabalável de que certas situações exigem medidas extremas e que as vítimas precisam ser ouvidas. Ex-militar e principal agente de campo do DSE, ele atua ao lado de Im Han Rim (Jin Ki Joo), uma ex-integrante das forças especiais que já trabalhou e foi salva por Hwa Jin quando se encontrava em situações semelhantes aos casos que passa a investigar, e de Bong Geun Dae (P.O do BTOB), o vice-diretor da divisão, responsável por grande parte do trabalho estratégico e investigação de campo disfarçada da equipe. Juntos, os três formam a linha de frente de um projeto que opera constantemente na tênue fronteira entre justiça e abuso de autoridade.
Mas a existência do DSE vai muito além da simples tentativa de restaurar a disciplina dentro das escolas. Por trás da criação do departamento está Choi Gang Seok, Ministro da Educação e idealizador da iniciativa. Sua motivação, no entanto, é profundamente pessoal pelo fato de que sua filha, Choi Ga Yun, uma professora dedicada e noiva de Na Hwa Jin, perdeu a vida após tentar ajudar um aluno que, alegando estar apaixonado por ela, acabou s assassinando. A tragédia não apenas destruiu duas famílias, como também expôs as limitações de um sistema incapaz de proteger seus próprios educadores. É dessa dor compartilhada que nasce o DSE, transformando o luto de Gang Seok e Hwa Jin na força motriz de uma instituição criada para impedir que outras histórias terminem da mesma forma.
E, embora a premissa inicial possa dar a impressão de que a trama se resume a alunos problemáticos recebendo punições exemplares, Teach You a Lesson rapidamente demonstra que o verdadeiro alvo de sua crítica nunca foi apenas os jovens, e sim o sistema. A cada nova escola visitada pelo DSE, somos apresentados a uma engrenagem diferente de um sistema em colapso: pais que transformam denúncias em armas pessoais, diretores mais preocupados com a reputação da instituição do que com suas vítimas, professores abandonados pela própria administração, estudantes consumidos pela pressão acadêmica e até mesmo adultos que se aproveitam das brechas criadas por leis que deveriam proteger os mais vulneráveis. Dessa forma, a produção constrói um retrato muito mais amplo e desconfortável do ambiente educacional contemporâneo, mostrando que o problema raramente está em um único indivíduo, mas em uma sucessão de omissões que permitem que situações abusivas continuem existindo.
E talvez seja justamente por isso que Teach You a Lesson funcione tão bem. O DSE não é retratado como um grupo de heróis impecáveis que surge para salvar o dia, mas como pessoas marcadas pelas consequências da omissão. A morte de Ga Yun paira sobre toda a narrativa como um lembrete constante do que está em jogo quando professores são abandonados pelo sistema que deveria protegê-los. Isso faz com que cada intervenção de Hwa Jin, Han Rim e Geun Dae carregue um peso maior do que a simples resolução de um caso. Eles não estão apenas combatendo alunos violentos ou desmantelando esquemas de abuso; estão enfrentando, repetidas vezes, as mesmas falhas institucionais que permitiram que aquela tragédia acontecesse anos antes. É essa ligação entre o pessoal e o coletivo que impede a trama de se transformar apenas em uma fantasia de vingança, dando às ações do departamento uma motivação emocional que acompanha o espectador durante toda a temporada.
Mais interessante ainda é que a narrativa raramente coloca os estudantes como únicos culpados pelos problemas que apresenta. Pelo contrário. Conforme os episódios avançam, fica evidente que boa parte dos conflitos nasce da conivência de adultos, da negligência das instituições e da forma como mecanismos criados para proteger pessoas acabam sendo manipulados para fins completamente opostos. Dessa forma, cada novo caso investigado pelo DSE revela uma camada diferente de um sistema educacional que parece ter perdido sua capacidade de corrigir os próprios erros.
Talvez o aspecto mais interessante seja justamente a consciência que ela tem dos próprios limites. Em nenhum momento Teach You a Lesson tenta convencer que o DSE está salvando o sistema educacional coreano. Pelo contrário. A cada caso encerrado, permanece a sensação de que a equipe apenas conteve uma crise que poderia voltar a surgir em outro lugar, sob outras circunstâncias. Afinal, os alunos problemáticos continuam existindo, os pais abusivos continuam existindo, as escolas continuam priorizando sua reputação e as instituições seguem operando dentro das mesmas estruturas que permitiram aqueles problemas em primeiro lugar. O DSE consegue interromper ciclos de violência, expor abusos e oferecer algum tipo de justiça às vítimas, mas deixa claro que nenhuma dessas vitórias é definitiva.
Essa percepção acaba tornando a narrativa muito mais amarga do que sua premissa inicial sugere. Porque, no fundo, os inimigos enfrentados por Hwa Jin e sua equipe não são apenas os agressores que aparecem em cada episódio, mas um sistema inteiro que produz, alimenta e protege esses comportamentos. E é justamente por saber que está lutando contra algo muito maior do que indivíduos específicos que o departamento recorre a métodos tão extremos. Não porque acredita que está mudando o mundo, mas porque alguém precisa agir enquanto as mudanças que realmente importam continuam não acontecendo.
Pensando bem, o aspecto mais desconfortável de Teach You a Lesson talvez seja a forma como a narrativa nos transforma em cúmplice dos métodos que critica. Afinal, em circunstâncias normais, dificilmente defenderíamos que um grupo de agentes utilizasse intimidação, força física ou abuso de autoridade como ferramentas de intervenção. No entanto, o drama constrói situações tão revoltantes e instituições tão omissas que, pouco a pouco, passamos a compreender — e até desejar — que alguém ultrapasse os limites daquilo que seria considerado aceitável. Existe algo perturbador nessa sensação, porque ela nos obriga a confrontar uma pergunta que a trama nunca responde de forma definitiva: estamos apoiando o DSE porque acreditamos que seus métodos são corretos ou simplesmente porque deixamos de acreditar que o sistema seja capaz de oferecer uma alternativa melhor?
Por mais que deixe claro que seus protagonistas estão longe de solucionar a raiz do problema, o k-drama entende perfeitamente o sentimento de impotência gerado pelas situações que apresenta. Os roteiros são construídos de forma a expor casos tão revoltantes que, quando Hwa Jin e sua equipe finalmente intervêm, é quase impossível não sentir uma sensação imediata de satisfação. A produção brinca constantemente com essa contradição moral: sabemos que muitos dos métodos utilizados pelo DSE são questionáveis, excessivos e até perigosos, mas também entendemos por que eles existem dentro daquele universo. Não é uma narrativa interessada em oferecer respostas fáceis sobre justiça, mas em desafiar o espectador a refletir sobre até onde estaria disposto a ir quando todos os outros mecanismos falham.
E é justamente nessa zona cinzenta que Teach You a Lesson encontra sua identidade. A série não pretende convencer que o DSE seja a solução para os problemas da educação coreana, tampouco ignora os riscos de entregar tanto poder a pessoas dispostas a agir acima das regras. Em vez disso, a narrativa utiliza seus métodos extremos para expor uma questão muito mais desconfortável: o que acontece quando as instituições falham por tanto tempo que a exceção passa a parecer mais confiável do que o próprio sistema? Talvez não exista uma resposta simples para essa pergunta. Mas, ao longo de seus episódios, Teach You a Lesson deixa claro que seu objetivo nunca foi apresentar soluções definitivas, e sim escancarar as consequências de uma estrutura que, repetidamente, abandona aqueles que deveria proteger.
Teach You a Lesson está disponível na Netflix!