Legend of the Female General: quando a lua abraça a força feminina

Legend of the Female General: quando a lua abraça a força feminina

He Yan (Zhou Ye) gosta de olhar a lua, seu brilho misterioso e sua silenciosa introspecção. Ela sempre considerou significativo erguer os olhos ao céu e se encantar com aquela presença solitária, que não brilha por si, mas ainda assim ilumina a noite. De alguma forma, ela gosta de pensar que se identifica com a lua: assim como ela, aprende a ocultar suas faces, a viver na penumbra de um céu repleto de estrelas com brilho próprio, escondendo aquilo que realmente é para sobreviver.

Para proteger sua família, He Yan precisou vestir uma máscara ainda na juventude e se passar por um homem, o filho mais velho de sua família. Ela cresceu entre expectativas que não lhe pertenciam, carregando responsabilidades que não escolheu. Traída, perseguida por aqueles que desejam vê-la morta, fugindo desse destino imposto e acostumada a ser uma guerreira no campo de batalha, He Yan se disfarça de homem mais uma vez para entrar no exército em Yezhou.

Lá, ela reencontra Xiao Jue (Cheng Lei), o comandante do exército, que é taciturno, implacável e aparentemente frio. Ele é o homem que ela conheceu na juventude, quando ainda frequentava a academia disfarçada de menino. Sob o disfarce e a improbabilidade da situação, Xiao Jue não a reconhece e desconfia de suas verdadeiras intenções.

No meio dos treinamentos e casos de vida e morte, He Yan precisa lidar com algo que vai além da guerra. Ela tem que provar seu valor, e isso não é apenas uma questão de orgulho, mas de sobrevivência. Ao mesmo tempo, convive com a presença constante de Xiao Jue, com a tensão de ser analisada por alguém que já fez parte de seu passado. Logo, assim como a lua que ela espreita pelo céu, segue alternando entre a luz e a sombra, tentando descobrir se existe um céu, um lugar, onde ela não precise mais se esconder.

Sou uma verdadeira fã da metáfora com a lua que consigo visualizar nas entrelinhas dessa história. Afinal, ela sempre está lá, na vasta escuridão que permeia o céu nas cenas dos personagens. O drama em si tem muitas cenas com a lua e a utiliza como simbolismo, pelo menos, é assim que interpreto a narrativa.

A lua são os personagens, é a forma como eles se enxergam, mas também o lugar onde se aconchegam das intempéries enquanto olham para ela. Nela buscam respostas, se reconfortam, são guiados, enxergam a si mesmos e aos outros. Para mim, é quase um personagem à parte, sempre presente para embalar a história, mesmo que não de forma explícita, mesmo que isso não fique nítido para todos que estão assistindo, mas, para os personagens, isso está sempre ecoando.

He Yan é uma personagem tão interessante por si só. Ela tem uma força e uma determinação latentes, uma coragem que salta aos olhos, mas que também funcionam como armaduras que escondem sua vulnerabilidade. Não é que ela faça isso de forma descarada, é quase automático, já que nunca teve a oportunidade de reservar um tempo para viver que não fosse em sentido de combate, batalha atrás de batalha, carregando todos os fardos de sua família.

Ela tem essa ligação com a lua, afinal, o astro simboliza também intuição, sensibilidade e transformação. Existe alguém que se transforme mais do que He Yan, que precise viver continuamente sob o disfarce de um homem? Ela se enxerga na lua porque essa é uma maneira de ter um tempo consigo mesma, de se reconectar com seu verdadeiro eu. O ato de observar a lua revela essa consciência emocional: organizar pensamentos, avaliar decisões, renovar a própria força interior, se guiar.

Assim, cada fase lunar pode representar momentos específicos de sua trajetória, a lua crescente como estímulo à esperança e ao crescimento, a lua cheia como manifestação plena de sua força, e a lua minguante como processo de reflexão e desapego de uma identidade que não é sua.

Mesmo que nossa protagonista pense que seja a lua porque vive escondida, não é somente isso que as conecta, e talvez nem seja exatamente assim que as coisas são.É como se a lua fosse o astro onde ela consegue enxergar sua própria solidão refletida, uma vez que a lua parece tão solitária diante de um vasto céu. He Yan também se sente assim.

Ela vive com medo de esquecer quem é, já que, desde que se entende por gente, quase nunca pôde existir sendo apenas ela mesma. Às vezes, parece que ninguém realmente a vê. E seu maior desejo é que alguém a reconheça como ela é, que a enxergue sem nuvens no caminho, sem camadas, que se lembre de seu verdadeiro nome.

Portanto, a lua funciona aqui não apenas como elemento poético, mas como um catalisador simbólico da força feminina. Ela conecta a personagem à sua dimensão emocional, ao autoconhecimento e à forma como sustenta sua própria resiliência diante dos desafios. Não é um símbolo grandioso demais, é constante, dado que está ali, silencioso, como He Yan também precisa estar.

No entanto, por mais que He Yan acredite ser a lua, sua trajetória se aproxima muito mais da de um sol. É como se fosse um sol que acredita ser lua. Ela irradia brilho, tenacidade e força, iluminando os caminhos ao seu redor mesmo quando não percebe. Não estou dizendo que a lua não ilumine caminhos, mas a sua fonte de luz  é o sol e a He Yan é essa própria fonte infinita de luz.

O processo de crescimento da personagem na trama passa justamente por isso: descobrir a si mesma, compreender quem é além dos disfarces, reconhecer que não precisa viver apenas na sombra. Aos poucos, ela entende que pode, e precisa,  brilhar por si própria, como realmente é. E isso é tão bonito porque toca em algo muito humano: quantas vezes escondemos nosso brilho e nosso potencial com medo de não sermos tudo isso? Quando, na verdade, já carregamos essa luz. 

Ela também é como o sol porque emana um poder ativo, uma presença que transforma os espaços por onde passa. Quando concebida como sol, a personagem deixa de ser apenas alguém que resiste e passa a ser alguém que influencia. Ela se torna fonte de energia, vitalidade e força própria. É o centro da própria narrativa, irradiando luz que afeta pessoas, eventos e decisões com sua presença firme ao longo da trama. E é tão revigorante ver uma protagonista tão decidida e forte, que vai construindo sua força por si mesma. Ela é perspicaz e estratégia e uma verdadeira líder.

Ao mesmo tempo, à medida que acompanhamos He Yan, temos ao seu lado Xiao Jue. Ele tem essa presença forte e introspectiva de um verdadeiro comandante, mente ágil e poucas palavras. Sua camada externa fria esconde um homem caloroso e gentil, que gradualmente revela seus encantos para quem está assistindo. Eu diria que Xiao Jue, sim, é a lua. Ele está sempre por ali, silencioso, acompanhando He Yan crescer e mostrar suas facetas. Com sua intuição e singeleza, representa essa energia mais contida, constante.

Enquanto a lua tradicionalmente reflete introspecção e sensibilidade, o nosso protagonista masculino manifesta esse poder de forma prática por meio do apoio, inspiração e cuidado. Ele simboliza estabilidade e conexão, reforçando os ciclos emocionais da personagem feminina e a ajudando a reconhecer e expressar sua própria força interior.

Assim, Xiao Jue está ao lado dela para iluminar aspectos que talvez He Yan ainda não enxergue, não de forma salvadora, mas como companheiro que a vê como ela é. Assim como a lua reflete a luz do sol sem perder sua própria identidade, nosso personagem masculino principal caminha ao lado da protagonista sem tentar diminuir seu brilho. Eles lideram juntos, e eu adoro isso.

É tão bonito porque tanto Xiao Jue quanto He Yan estão, à sua maneira, sozinhos, já que ambos vivem sem um lar onde possam realmente descansar, sustentando suas próprias armaduras enquanto enfrentam suas batalhas. Esse é um dos pontos mais significativos de identificação entre eles, possuem vivências diferentes, mas que se entrelaçam na solidão, na responsabilidade e na dificuldade de baixar a guarda. É por isso que acompanhar eles saírem da desconfiança inicial para um relação sólida de confiança e afeto provoca uma sensação de satisfação com a história de amor que está sendo contada.

É um romance que tem seus momentos emocionantes, embalados pelo luar, pelas declarações contidas, pelos olhares silenciosos e pelos planos traçados lado a lado. Mas também é divertido e provocativo. Não é pesado, pelo contrário, o drama nos presenteia com várias cenas desse casal com uma química incrível, construídas de forma leve e gostosinha de assistir. Das implicâncias, as brincadeiras até os momentos que precisam enfrentar os vilões e momentos de vida e morte.

Dessa forma, se o romance deles é acompanhado pelo luar, ele também revela a dinâmica entre sol e lua: dois astros que não competem, mas coexistem. Um que irradia e aprende a reconhecer sua própria luz, e outro que reflete, sustenta e permanece constante, eles também se veem refletidos um no outro. Particularmente amei a declaração de amor deles com referências a lua e como ao afirmar que amava a lua, ela estava demonstrando todo o seu amor por ele, isso foi tão singelo e potente, que tive vários mini-surtos.

Mesmo centralizado nos protagonistas,Legend of the Female General apresenta vilões com suas próprias tramas e obsessões, personagens dúbios, interessantes à sua maneira. Há também personagens secundários carismáticos e cativantes, como Song Tao Tao (Zhang Miao Yi), além dos colegas da protagonista no campo de batalha, que ajudam a dar leveza em meio aos conflitos.

Além disso, a trama se concentra nas situações que afetam diretamente os protagonistas, isto é,  inimigos de guerra, espionagem, intrigas e tramoias da corte, mas equilibra esses elementos com cenas de luta e ação interessantes. É sempre revigorante assistir a personagens femininas lutando, comandando e ocupando espaços tradicionalmente negados a elas. O c-drama traz, sim, essa proposta que remete a Mulan, não apenas pelo disfarce masculino, mas pela discussão sobre identidade, dever e pertencimento. E a obra tem seu mérito justamente por propor essa premissa.

No entanto, eu sempre tenho minhas reclamações a comentar. Veja só: eu amei esse c-drama. Foi, definitivamente, um dos que mais gostei de assistir em 2025, justamente porque era leve, divertido e entregava exatamente o que eu queria naquele momento: um romance. Porém, não posso deixar de apontar que, muitas vezes, a trama acaba deixando outros pontos de lado. Poderíamos, sim, ter visto mais enfrentamentos no campo de batalha. Sinto que quem estava esperando um drama épico pode ter sentido falta de cenas mais grandiosas, especialmente considerando que os pôsteres e a divulgação remetiam a algo mais intenso nesse sentido.

Assim, para quem deseja acompanhar um romance bonito, Legend of the Female General entrega isso com segurança. Mas, para quem vai com expectativas muito altas de uma grande trama épica e militar, pode haver um certo desencontro. Eu, particularmente, estou satisfeita com o que a obra entregou, mas é preciso ir assistindo ciente do que ela é.

Outro ponto que percebo é que senti falta de um desenvolvimento mais aprofundado do passado da protagonista, faltou explorar melhor sua história de fundo, sua relação com o mestre e com outros personagens importantes. Em alguns momentos, parece que a narrativa não a envolve totalmente nem com o próprio passado nem com os laços do presente. Algumas conexões poderiam ter sido mais trabalhadas para que o impacto emocional fosse ainda maior. Sobre o passado, isso poderia ser resolvido com flashback mais consistentes.

Na verdade, é perceptível que o drama sofreu cortes, principalmente no núcleo secundário. A produção enfrentou problemas com um dos atores – que se envolveu em uma polêmica, acho, não sei detalhes disso – e ele fazia parte do romance secundário da história. De última hora, com boa parte das cenas já gravadas, a equipe precisou substituí-lo, utilizando tecnologia (IA) para alterar o rosto nas cenas já prontas.

É uma situação complicada, que inevitavelmente afeta a fluidez do núcleo secundário, porque nem todas as cenas originalmente planejadas permaneceram na versão final. É uma pena, porque dava para perceber que havia mais ali. Nesse sentido, o romance secundário que poderia ser fofo e gostoso de acompanhar, quase não aparece.

Além disso, tive dificuldade de me prender nos cinco primeiros episódios. Na minha opinião, o  início foi um pouco irregular em termos de ritmo e construção narrativa. Depois disso, no entanto, fiquei muito envolvida com a história e com os personagens. Quando o drama encontra seu equilíbrio, ele realmente funciona, mas exige um pouco de paciência no começo.

É como digo: a história tropeça aqui e ali, mas eu gosto do que ela se propõe a fazer. Existe, sim, uma preocupação do roteiro em destacar a presença feminina, mesmo que, por vezes, escorregue nessa representação. Ainda assim, isso já é um ponto significativo. He Yan está a todo momento falando sobre como as mulheres precisam ter seus direitos, serem ativas e presentes na própria vida. Ela incentiva outras mulheres a voarem, a não se esconderem, a serem elas mesmas, indo muito além do que a sociedade lhes impõe.

O drama mergulha nessas pequenas histórias femininas com sensibilidade. A protagonista questiona o confinamento da mulher ao espaço doméstico, a servidão conjugal, as expectativas e pressões colocadas sobre o feminino. Questiona também a injustiça estrutural que permite aos homens estudar e escolher seus caminhos enquanto as mulheres são limitadas antes mesmo de tentar. Pode não ser um discurso perfeito ou totalmente aprofundado, mas ele está ali, constante, atravessando a narrativa.

Por fim, Legend of the Female General nos mostra a importância de termos pessoas que caminhem ao nosso lado, mas também ressalta a grandeza de vivermos sendo nós mesmos. Na verdade, a preciosidade que existe na liberdade de poder viver sem máscaras. Os fardos que carregamos não deveriam nos afastar de quem somos, nem romper nossa conexão com os outros, mas servir como impulso para superá-los e encontrar apoio, parceria e amor no caminho.

Talvez o momento mais precioso seja aquele em que permitimos que a lua acompanhe nossa jornada, que reconhecemos nossa própria luz, mesmo quando acreditamos viver apenas na sombra. Que entendemos que, mesmo nas noites mais escuras, existe um brilho que nunca se apaga. E aprender a enxergá-lo, em nós e nos outros, é parte do crescimento.

Legend of the Female General está disponível no Viki!

Brenda Mendes

Historiadora, professora e criadora de conteúdo digital, está sempre em busca de uma nova história para desbravar e aquecer seu coração, apaixonada por doramas de romance e slice of life, é uma leitora ávida há mais de 10 anos.

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