Burnout Syndrome: o paradoxo das flores em um mundo exausto
“Toda vez que uma flor desabrocha, ela gasta uma enorme quantidade de energia. Por isso, eu gosto de flores. Elas mostram uma luta, a morte e a beleza, dependendo de como as pessoas veem”
Uma flor floresce porque está viva ou porque está se consumindo? Beleza e colapso podem ocupar o mesmo corpo? É possível florescer enquanto se apodrece por dentro? Jira (Gun), Koh (Off) e Pheem (Dew) vivem no centro dessas perguntas, que atravessam não apenas quem eles são, mas a forma como ocupam o mundo e se relacionam. Mesmo quando suas partes boas ainda existem, elas não se expandem, são sugadas por conflitos internos, exaustão e escolhas que corroem o que poderia ser cuidado, que flertam com seus lados tóxicos. Eles são flores, mas não no sentido idealizado que costumamos associar às flores: a pureza, leveza ou recomeço. São flores marcadas pelo desgaste, pela ambiguidade moral e por afetos que já passaram tempo demais sob pressão. Em vez de pétalas intactas, o que se vê são bordas feridas, áreas em decomposição, contradições. Não mostram o que está sem arranhões, mas aquilo que já foi tocado pelo esgotamento e pela própria vida.
Jira é um artista que enfrenta dificuldades para pintar seus quadros. Nunca tendo vendido nenhuma de suas obras, sem um tostão no bolso e afundado em dívidas, ele sobrevive de bicos que uma amiga consegue para ele, desde testes aleatórios como ator até qualquer trabalho que possa garantir algum dinheiro. Está exausto, sem inspiração e cada vez mais distante da própria alma de artista. É em meio a essa turbulência que ele passa a frequentar o Burnout Syndrome, um bar onde pessoas esgotadas se reúnem para lidar com o próprio desgaste e desabafar com estranhos. Do outro lado da mesa, ele encontra um rapaz gentil e galanteador, com a surpreendente habilidade de fazê-lo se sentir confortável.
Pheem escuta os desabafos de Jira no Burnout Syndrome enquanto também expõe os seus. Flertador confiante, acostumado a conseguir o que quer e raramente ouvir um “não”, ele se vê intrigado por Jira, alguém que, por alguma razão, resiste à sua lógica de conquista. É assim que os dois constroem uma dinâmica em que, ao tentar seduzir Jira, Pheem se afasta momentaneamente dos próprios conflitos, ao mesmo tempo em que se torna cada vez mais obcecado por algo tão difícil quanto a entrega do artista. Além disso, Pheem também está esgotado. Por trás das noitadas e da personalidade aparentemente calma e segura, existe um trabalho que o sufoca: ele é constantemente ordenado a fazer coisas que não deseja, enquanto seu chefe – que também é seu amigo de infância – o mantém preso a uma dinâmica que o fere e o desgasta.
Esse chefe é Koh, uma figura enigmática e consumida pela própria ambição. Extremamente rico, ele construiu sua fortuna no setor de tecnologia, mas também derrubando pessoas no caminho. Koh parece acreditar que os fins sempre justificam os meios, revelando um egoísmo frio e uma vontade de poder quase sem limites. Ainda assim, como Jira e Pheem, ele é feito de contradições: sua aparência magra e frágil, a exaustão constante e a incapacidade crônica de dormir expõem um homem em colapso, corroído por dentro pelo mesmo sistema que ele ajudou a criar.
Incapaz de manter contato direto com outras pessoas – crises o isolam – e confinado ao luxo estéril de seu hotel, Koh precisa de alguém que execute por ele seu trabalho duvidoso. É assim que ele encontra Jira, enxergando no olhar do artista um desespero cru, algo explorável, mas também uma espécie de calmante. Usando tanto a própria exaustão quanto a urgência de Jira por dinheiro, Koh lhe propõe um acordo que atende às necessidades materiais do artista e às exigências práticas de seu império. Mesmo tomado pela antipatia que sente por Koh, Jira aceita o papel: passa a se fazer passar por ele em eventos públicos, ocupando um lugar que não lhe pertence. O trabalho paga bem, mas não é só isso. Há algo de profundamente perturbador e fascinante em Koh, uma figura que, apesar do egoísmo, continua a atrair o artista, a invadir sua imaginação. Aos poucos, Koh deixa de ser apenas um empregador e passa a se tornar matéria-prima para a arte de Jira, transformado em inspiração para seus quadros.
É difícil condensar as relações e a própria premissa de Burnout Syndrome em poucas linhas, e talvez o texto até extrapole o tamanho ideal, porque o que se constrói entre Jira, Pheem e Koh é essencialmente complexo e paradoxal. Todos eles carregam zonas cinzentas muito visíveis, partes corroídas que tentam esconder de si mesmos e dos outros. Não os defino como mocinhos, mas sim personagens presos a uma teia de afetos guiada pela confusão, pela carência e pelo desgaste. Assim, o que se forma é um triângulo de desejos tortos: Pheem se prende a Jira, Jira se agarra a Koh e mantém Pheem, e Koh se fixa em Jira. Mas isso não acontece no registro do romance doce ou da idealização, eu até diria que essa não é uma história de amor, não a vejo dessa forma. É algo mais cru, mais tenso e profundamente imbricado, em que amor, poder, dependência e exploração se confundem até se tornarem quase indistinguíveis.
É por isso que a metáfora das flores funciona de forma tão poderosa dentro da trama. O BL a utiliza não como um ornamento, mas como um eixo simbólico: ela atravessa cada episódio, seja na composição visual, seja no próprio roteiro. Sempre que uma flor é mencionada, retornamos às perguntas que abrem esta resenha – sobre vida, desgaste, beleza e colapso – e também ao cerne do que o drama se propõe a investigar. A cada episódio, uma flor diferente é apresentada para marcar o estado emocional dos personagens, a forma como seus vínculos se transformam e como eles lidam consigo mesmos. Essa escolha cria uma gramática visual precisa, em que cada pétala, cor e desabrochar dialogam com o que está sendo vivido. Temos como resultado uma estética singular, em que simbolismo e afeto caminham juntos, que também transparecem nos quadros que Jira pinta, já que as flores também estão presentes em suas obras.
Em sua camada mais profunda, essa estética nos conduz a enxergar Jira, Pheem e Koh como flores. Não flores exuberantes, mas flores colapsadas, que parecem cada vez mais distantes de si mesmas (ou talvez mais próximas de outros lados seus?), exaustas de suas próprias realidades. Ao se envolverem uns com os outros, formam laços que os consomem, mas que também os distraem da própria miséria emocional. Essas relações não curam, apenas suspendem o peso por alguns instantes, como um breve desabrochar antes de mais um desgaste. O que Burnout Syndrome faz de mais perturbador é justamente recusar a ideia de que o desabrochar seja apenas beleza. O BL insiste, a todo momento, que beleza e caos caminham juntos, como partes inseparáveis de um mesmo processo. Uma flor só se abre porque está gastando tudo o que tem; ela floresce por meio do desgaste, e não apesar dele. Depois, inevitavelmente, vem o murchar.

Assim também são os personagens da trama. Jira, Pheem e Koh desabrocham a partir do esgotamento, da pressão, da raiva e da necessidade de continuar funcionando quando já não há mais reservas. O que parece belo por fora – o charme, o talento, o poder, o desejo – carrega, por dentro, algo inevitavelmente corroído. E é justamente essa parte ferida, instável e feia que torna tudo mais verdadeiro. O drama faz esse exercício contínuo de enxergar a beleza no que está estragado, não é um conceito de beleza a qual estamos acostumados como algo perfeito, mas como se o belo fosse tudo aquilo que está no limite ou extrapola ele. O processo de apodrecimento, a exaustão e todo o resto são vistos como espaços que atraem ou que a beleza pode morar, porque por trás de tudo que é belo também existe uma parte podre.
Em muitos casos, essas partes podres são ocultadas; em outros, são ignoradas ou até acentuadas, como se fossem elas que nos tornassem mais fortes. Há ainda momentos em que apenas aprendemos a conviver com elas. Por isso, é tão difícil acompanhar cada personagem de Burnout Syndrome. Todos são atravessados por defeitos, muitas vezes tóxicos e instáveis, e, inevitavelmente, acabam irritando quem assiste. Se as flores gastam energia para sobreviver, esses personagens passam o tempo todo desperdiçando suas forças nas próprias turbulências, turbulências que nem eles conseguem compreender por completo.
Jira é essa flor difícil de decifrar. Ele utiliza como combustível um solo contaminado para florescer, já que enxerga beleza nas margens feias da existência e se alimenta delas para germinar. O cansaço que o consome é o da própria frustração enquanto artista. Ele está exausto porque não consegue chegar onde deseja, porque não há desejo suficiente para ser consumido, nem caos que o mova. Não sabe que caminho tomar e, mesmo se colocando contra o capitalismo, é justamente ele que permite que suas obras sejam vendidas e gerem renda. E o dinheiro o atrai.
Ainda que se sinta confortável nos lados bons que lhe são apresentados, aqueles que o ajudam a se desligar de sua confusão emocional intrínseca, são as vertentes terríveis que o atraem e o fazem respirar. Ele não deseja adubo, ele quer atrito. As contradições estão ali: no discurso coerente sobre como diz viver a vida e nas atitudes dúbias que toma; nas tentativas constantes de se guiar pela razão quando, no fundo, é a emoção que gostaria de seguir.
Jira está esgotado não apenas porque o mundo não lhe entrega o que deseja, mas porque ele próprio não consegue se reconhecer em suas pétalas corroídas. Mesmo quando não tenta se nutrir apenas de si, não consegue crescer senão envolto de suas próprias sensações, desejos e de um egoísmo que se disfarça de sensatez. Ele finge não perceber em qual jardim gostaria de estar e, enquanto cria a ilusão de se afastar daquilo que afirma detestar, mantém ambas as margens intactas, porque cada uma delas é útil em momentos distintos. Assim, Jira sustenta suas contradições não somente por ignorância, mas por conveniência. Enquanto se engana e faz o que mais lhe apetece, preserva esse equilíbrio instável entre negação e desejo, crítica e dependência, caos e controle.
Pheem também é uma flor atravessada por contradições. Ele cresceu acostumado a ser regado como a mais preciosa de um jardim. Ainda assim, sente uma atração quase inevitável por aqueles que pisam em suas pétalas. Há algo de sedutor na violência simbólica que o fere, talvez porque ela confirma algo que ele se recusa a admitir.
Ao se convencer de que é a melhor flor e ao tentar agir como tal, Pheem se perde em si mesmo. Isso porque passa a vida inteira tentando esconder suas partes corroídas. Quem expõe suas próprias falhas o fascina, justamente porque ele não consegue fazer o mesmo. Tal ato o atrai não por empatia, mas por inveja: o outro pode mostrar o que nele precisa permanecer oculto.
Quando não recebe a atenção à qual está habituado, entra em um ciclo vicioso. Pheem passa a sobreviver de migalhas de nutrientes contaminados – afetos rasos, validações instáveis – que apenas intensificam sua obsessão. Ele se alimenta da sensação constante de não ter, de não poder, de não possuir, se alimenta do desejo frustrado e da narrativa de si como vítima permanente. É na falta que ele encontra um tipo distorcido de identidade.
Assim, aquele que acreditava ser a flor mais bonita do jardim passa a sentir, a todo momento, que precisa se ajustar, se moldar, se recalibrar para continuar sendo desejado. E, nesse processo, seus lados mais destrutivos começam a emergir. Pheem está exausto porque viver sustentando uma versão editada de si é profundamente cansativo; porque precisa ser constantemente nutrido e, ainda assim, ele parece gostar da vertigem de não ser, da sensação paradoxal de desaparecer enquanto exige ser visto.
Koh é essa flor que não apenas admite estar podre, mas faz questão de exibir sua decomposição. Ele prefere esperar ser consumido pela própria contaminação e, ao se deixar corromper, se transforma conscientemente em uma flor tóxica. Assim, é mais fácil que as outras flores do jardim não se aproximem: afastadas pelo veneno, elas não o tocam, não o exigem, não o ferem. Em sua própria estufa, Koh consome e é consumido, criando uma espécie de armadura, não uma bolha ingênua de quem desconhece o que faz ou é uma vítima, mas uma bolha lúcida, construída com intenção.
Ser uma flor tóxica passa a ser, para ele, uma estratégia de sobrevivência. É a forma que encontra de criar raízes em um solo que considera arenoso demais, instável demais, incapaz de sustentá-lo sem dor. O problema é que expelir toxinas continuamente também o perturba, já que o veneno não se dissipa apenas no outro; ele retorna, circula, corrói, virando desgaste.
Há algo paradoxal em Koh: alguém que se torna egoísta não apenas por desprezo ao outro, mas por exaustão dele. Não como uma justificativa embelezada, mas como uma constatação crua de que o cansaço pode nascer justamente da intensificação das próprias partes podres. Quanto mais ele se apoia nelas, mais pesado se torna carregá-las e pior ele é.
Ainda assim, Koh é também essa flor que sente falta de algo humano e confortável ao redor. E isso é, talvez, o aspecto mais tortuoso de todos. Porque como uma flor que espalha veneno a ponto de corroer as outras, pode desejar a presença delas? Em que ponto a exaustão se converte em indiferença? Em que momento a autoproteção atravessa a linha e se transforma em egoísmo?
Com isso, as relações entre os três se tornam inevitavelmente tóxicas. A de Jira e Pheem o é, e a de Koh e Pheem também; sobretudo, a de Jira e Koh. Não consigo defini-las por qualquer outro adjetivo que não esse: eles estão presos às teias de seus próprios comportamentos destrutivos.

Jira e Pheem se conectam por uma dependência marcada por uma troca assimétrica de carências. Isso se evidencia quando percebemos que, em Pheem, aflora a necessidade constante de se manter no campo de atenção de Jira, de garantir esse lugar sem nome. Jira, por sua vez, encontra conforto em uma presença previsível, que não o desestabiliza e que parece caber na lógica racional que ele tenta impor às próprias escolhas. A dependência, assim, vai se delineando no arranjo silencioso da repetição desses comportamentos.
Não foi por acaso que muitas pessoas preferiram a relação de Jira e Pheem. Eles têm uma ótima química, e Pheem carrega essa aura de “bom moço” que desperta empatia, mesmo enquanto sustenta sua dependência. Do meu ponto de vista, acompanhar a dinâmica dos dois foi interessante justamente porque ela também era desconfortável: enquanto um se entregava até se corroer, o outro apenas tentava se manter. Nunca acreditei que eles teriam um desenvolvimento romântico além do que foi mostrado, mas o drama poderia, sim, ter explorado melhor essa relação, já que muita gente não conseguiu compreendê-la plenamente.
Foi interessante à sua maneira e, inevitavelmente, ambos os personagens me irritaram em vários momentos. Há uma espécie de falsa hipocrisia em seus comportamentos, atravessados por contradições, ainda que protagonizam cenas bonitas. Assim como a direção, os atores conseguiram expressar bem essa complexidade, não apenas Dew e Gun, mas Off também me surpreendeu em sua atuação como Koh. Enquanto grande parte do público estava focada em quem Jira escolheria no final e se perdia nos shipps, confesso que isso nunca foi minha maior preocupação. Eu estava mais interessada em até onde eles seriam capazes de ir.
Entrementes, Koh e Jira constroem uma relação atravessada por um desejo tortuoso, marcado por reconhecimento e apropriação. Jira se sente atraído por aquilo que, em Koh, se apresenta como matéria corroída: exposta, sexual, desgastada e que, paradoxalmente, emana quietude. Koh se deixa olhar, se impõe como algo a ser capturado. É como se as vulnerabilidades que ele expõe não pedissem cuidado, e fossem justamente essas partes quebradas que atraíssem Jira. Para Koh, Jira é alguém que o deseja sem querer salvá-lo, produzindo um tipo de reconhecimento que o ancora. Um desejo atravessado pela permanência, pelo corpo, pela experiência de ser visto e continuar existindo para o outro. Essa assimetria impede qualquer estabilização do vínculo, já que ele se sustenta justamente porque não se resolve, permanecendo preso ao que falta, formando um desejo entre os personagens que é tensão e exige repetição.
Do mesmo modo, o vínculo dos protagonistas se mantém porque um oferece ao outro aquilo que falta, sem jamais suprir por completo. Jira encontra, na corrosão de Koh, um território fértil para projetar sentido, e Koh encontra, em Jira, uma presença que lhe permite repousar sem desarmar totalmente suas defesas. Podemos colocar como uma troca silenciosa, a qual mescla fascínio e necessidade, desgaste e contenção, que sustenta uma relação: tensa, contaminada, nunca totalmente segura, mas capaz de despertar sentimentos múltiplos e singulares, únicos como cada flor.
O que mais me interessa na relação entre Koh e Jira é o fato de ela nascer como algo impossível, algo que jamais poderia se tornar um caminho saudável. Koh está atolado em seus próprios problemas, assim como Jira. Acompanhei essa relação não como um romance de redenção, como se o amor pudesse salvar tudo, mas com a curiosidade de entender que caminho eles escolheriam trilhar. O desejo é retratado de forma potente, carregado de simbolismos, assim como a evolução do vínculo mediada pelos quadros pintados por Jira. Dessa forma, a conexão física entre os dois é palpável, e a química entre os atores se impõe com força. É possível sentir a tensão mútua que é ignorada, alimentada, recusada e, ainda assim, inevitável. Os comportamentos de ambos estão longe de qualquer idealização. Koh opera por meio da manipulação e de sua personalidade ambígua, e Jira tampouco é um mocinho indefeso: ele sabe exatamente com quem está lidando e, ainda assim, permanece nesse jogo entre desejo e controle, defesa e vulnerabilidades expostas. Não passo pano para os comportamentos de Koh, que muitas vezes me irritaram, nem tento romantizá-lo. Mas, assim como os demais personagens, ele está inserido dentro daquilo que Burnout Syndrome se propõe a contar.
Quando comecei a assistir a esse BL, eu não sabia exatamente o que esperar. A sinopse dizia pouco. Eu só sabia que OffGun estavam no elenco e que a direção era a mesma de Not Me, o que já indicava que não seria uma obra convencional. À medida que os minutos passavam, fui ficando completamente fascinada.
Burnout Syndrome se diferencia de tudo o que a GMMTV já produziu no gênero BL, me questionei até se era mesmo dela. É cru, melancólico, sombrio e possui uma das direções estéticamente mais precisas que já vi em um BL. Uma estética que se alia ao sentido e ao simbolismo, potencializando a narrativa. O clima da história me prendeu justamente por essa sensação de não saber completamente quem são aqueles personagens, nem como irão se imbricar ou que rumo a trama escolherá seguir. Há um charme natural que nasce de sua própria premissa. A trama não é – e nem tenta ser – doce, confortável e romântica, ela trabalha com a tensão: entre os personagens, entre o mundo exausto que habitam e os espaços que tentam ocupar ou dos quais tentam fugir.

O bar funciona como um microcosmo dessas pessoas exaustas, mas o esgotamento não aparece de forma explícita, uma vez que ele é construído de maneira ambígua, quase difusa, gerando distorções nos indivíduos. A sociedade exige demais: há quem precise desesperadamente de dinheiro e há quem use o dinheiro para tentar aplacar seus vazios. Todos parecem sugar do outro aquilo que lhes falta e, nesse processo, vão também se corroendo. Quando transportamos isso para a ideia de burnout, o paralelo é direto, uma vez que muitas pessoas parecem estar “florescendo”, isto é, trabalhando muito, rendendo, sendo vistas, desejadas, úteis, justamente porque estão consumindo a si mesmas. A produtividade, o brilho exterior e a presença social não nascem da vitalidade, mas da expropriação da própria energia. Estamos falando de um sistema que exige florescimento contínuo, ao mesmo tempo em que produz relações quebradas, escolhas equivocadas e conflitos que se intensificam quando a energia psíquica se esgota.
Outra questão é que os personagens de apoio surgem com um carisma quase irremediável. Basta observar: Jira, o protagonista, nem sempre é carismático; Koh, menos ainda, embora carregue um ar enigmático; e Pheem é o único que tenta, de forma mais consciente, ocupar o lugar do “mocinho” carismático. Ainda assim, na maior parte do tempo, nenhum deles parece realmente preocupado em conquistar o espectador ou gerar identificação. Eles apenas são e, enquanto são, se consomem, já que estão, o tempo todo, sendo consumidos. Em contraste, os personagens secundários, compostos pela a amiga de Jira e o amigo de Pheem, trazem esse carisma espontâneo e cumprem com precisão sua função de apoio. Eles são figuras cativantes dentro do caos dos protagonistas, que despertam a vontade de vê-los mais, de entender em que medida também são atravessados pelo esgotamento e pelo consumo em suas próprias vidas, mesmo que o drama não reserve um espaço para isso.
Burnout Syndrome também amplia sua reflexão ao tocar na arte e na inteligência artificial. Koh e Jira encarnam visões opostas, enquanto Jira valoriza a arte como expressão humana e se posiciona radicalmente contra sua reprodução por meio da IA, Koh representa a crença na substituição, na otimização, na reprodução técnica. O drama, assim, lança questões profundamente atuais. Se a arte nasce da experiência humana, da dor, do desgaste, do desejo e da contradição, o que acontece quando ela passa a ser reproduzida por sistemas que não sentem, não se esgotam? A IA pode imitar a forma, mas consegue reproduzir a falha? Pode criar a partir do vazio, da perda, do cansaço, os sentimentos e a unicidade deles? Ou estamos apenas projetando sentido em algo que opera por acúmulo e recombinação de dados? Se o humano já se consome até florescer, o que resta quando até a criação, esse último espaço de elaboração e resistência, se torna automatizada? A arte perde sua potência crítica ou apenas muda de lugar? E, no fim, quem está sendo substituído: o artista ou o próprio sentido do que é criar? Talvez Burnout Syndrome não queira responder a essas perguntas, talvez queira apenas nos deixar nesse desconforto. E, sinceramente, acho que esse incômodo é um mérito, visto que a obra lançar o espectador para pensar além do que é exposto, além do que é profundamente perfeito, mas também na forma desigual e injusta que nossa sociedade se organiza e nas mudanças que chegam até ela.

Todavia, ao pensarmos em todas as infinitas reflexões que Burnout Syndrome propõe, talvez seja justamente aí que a obra tropece. Embora apresente uma premissa ousada e singular, o BL não consegue acessar toda a profundidade que ela sugere dentro da quantidade de episódios que possui. Não considero a história superficial, mas sinto que ela não alcança a profundidade que poderia. A questão da inteligência artificial, por exemplo, levanta questionamentos extremamente pertinentes, mas não consigo deixar de sentir que sua integração à trama acontece de forma um pouco superficial, quase de raspão. Ela aparece, provoca, inquieta, mas não se aprofunda como poderia, especialmente considerando o peso simbólico que carrega.
Outro ponto que me incomoda é a segunda metade da narrativa. Diria que, nos três ou quatro episódios finais, a obra começa a perder parte de sua força. Talvez porque se torne menos imprevisível do que antes, talvez porque os acontecimentos, não sejam explorados com a intensidade emocional ou inquisitiva que permitiriam. Há muita complexidade em jogo, e nem sempre ela é trabalhada da forma que merece (talvez eles se ocupem demais com o triângulo amoroso), ainda que o drama também opere no campo do simbólico, do não dito, do sugerido.
Diante disso, acredito que a história teria se beneficiado de um número maior de episódios. Um arco de 16 episódios permitiria que as relações e as psiques desses personagens fossem exploradas com mais calma, sem a sensação de urgência que, em alguns momentos, compromete o aprofundamento. O conflito da reta final, em especial, me parece mal resolvido, apressado. O drama faz uso do espaço temporal como um símbolo de reinício, de restart. Talvez essa tenha sido, de fato, a mensagem que ele quis transmitir, mas a sensação permanece, já que não vemos os personagens resolvendo suas questões, não acompanhamos os desdobramentos internos desse processo. E talvez o ponto seja justamente esse: mostrar que não há resolução plena. Mesmo assim, fica a impressão de que algo falta, de que há um vazio narrativo que não chega a se converter totalmente em sentido
Tenho a sensação de que Burnout Syndrome não anda muito para lugar algum. E provavelmente isso me incomoda justamente porque, no fundo, eu sempre espero constatar a evolução dos personagens, algum tipo de avanço, nem que seja mínimo. Mas talvez, como eu disse, a obra nem esteja interessada nisso, talvez ela só queira me mostrar que o caos emocional é muito mais predominante, e muito mais real, do que qualquer ideia bonita de crescimento.
Há pessoas por aí que continuam se autodestruindo dia após dia, que encontram no que está corroído uma forma distorcida de beleza, algo que as impulsiona sempre em direção ao abismo. Não porque não saibam que dói, mas porque aquela dor já se tornou familiar, e o caos é como se fosse parte de uma identidade. Diante disso, é impossível não se perguntar: Estamos esgotados somente por causa do mundo externo? Ou porque o fascínio pelo caos se torna cada vez mais forte? Será que o esgotamento não é apenas o resto de energia que sobra e que usamos para nos manter em ciclos tóxicos e viciosos, em vez de romper com eles? Quando se vive de um único modo por tanto tempo, como aprender a viver de outro? Burnout Syndrome parece dizer que nem tudo é belo da forma como gostaríamos. Somos consumidos tanto pelo que vem de fora quanto pelo que permitimos que nos consome por dentro. E sair disso não é algo simples, nem automático, nem heroico. Às vezes, ao nos alimentarmos do que é corrosivo, ao convivermos com o que é tortuoso, estamos, paradoxalmente, tentando sobreviver, nos agarrando ao que conhecemos, mesmo que isso nos destrua. Se florescer é consumo, ele se torna algo quase perverso, ao mostrar que só conseguem existir enquanto continuam consumindo e consumindo quem chega perto. No fim, para a trama, florescer não é sinal de saúde, é sinal de gasto e isso é paradoxal, porque aquilo que deveria significar vida passa a ser apenas a prova visível de um esgotamento que nunca cessa e que envenena.
Burnout Syndrome está disponível para ser assistido no iQiyi!