This Is I: quando existir se torna o maior ato de coragem

This Is I: quando existir se torna o maior ato de coragem

“Ser esquisito quer dizer que ninguém te aceita. Então, se pelo menos uam pessoa acita você, não é esquisito”

Até onde alguém precisa ir para simplesmente poder ser quem é? Essa pergunta ecoa ao longo de This Is I como um sussurro constante, às vezes doloroso, às vezes esperançoso, mas sempre presente. Inspirado na vida de Haruna Ai, uma das artistas trans mais conhecidas do Japão, o filme não se constrói apenas como uma cinebiografia comum, ele se apresenta como um retrato sensível sobre identidade, pertencimento e a lenta (e muitas vezes exaustiva) jornada de autoaceitação. O que poderia ser apenas mais uma narrativa de superação se transforma em algo mais íntimo, mais vivido, quase como se estivéssemos acompanhando não uma personagem, mas uma memória que ainda pulsa.

A história começa com Kenji Onishi (Haruki Mochizuki), um garoto que desde cedo carrega a sensação de deslocamento. Nos corredores da escola, no silêncio da própria casa e nas expectativas rígidas da sociedade, ele aprende rapidamente que existir fora da norma tem um preço. O bullying não é estilizado, não é exagerado, não é transformado em espetáculo, ele é repetitivo, banal e profundamente cansativo, como costuma ser na vida real. O filme acerta ao não dramatizar excessivamente essas experiências, permitindo que o peso delas se acumule aos poucos, moldando a autoimagem de Kenji sem recorrer a explosões emocionais fáceis.

Conforme a narrativa avança, vemos Kenji se aproximar do palco, do canto, do cabaré, do brilho neon da noite de Osaka e, ali, entre artistas queer e performances vibrantes, surge a possibilidade de um futuro diferente, não como fantasia, mas como construção. A transformação em Haruna Ai não é tratada como um momento mágico e definitivo, mas como uma sequência de decisões difíceis, medos médicos, perdas afetivas e coragem cotidiana. O filme deixa claro que identidade não é um anúncio público feito em um único instante, é uma prática diária, um ajuste constante entre o que se sente e o que se consegue sustentar diante do mundo.

Um dos pilares emocionais da narrativa é a relação entre Ai e o Dr. Koji Wada (Takumi Saitoh). Longe de ser retratado como salvador ou herói idealizado, Wada é humano, falho e atravessado por suas próprias dúvidas éticas e pessoais. O vínculo entre eles não se constrói por grandes discursos, mas por conversas cuidadosas, silêncios compartilhados e uma confiança que se desenvolve lentamente. Há uma cena particularmente marcante durante um procedimento cirúrgico, em que uma frase simples dita por ele carrega mais conforto do que qualquer discurso poderia oferecer. É nesse tipo de momento que o filme alcança sua maior força: quando confia na delicadeza.

Haruki Mochizuki entrega uma atuação de rara contenção, sua interpretação de Kenji/Ai não se apoia em exageros ou teatralidade constante, mas em pequenos gestos, a forma como os ombros se posicionam, o modo como o olhar ganha firmeza com o passar do tempo, a hesitação que gradualmente se transforma em presença. É uma performance que entende identidade como algo vivido no corpo. Ao seu lado, Takumi Saitoh constrói um Dr. Wada equilibrado e profundamente empático, enquanto Tae Kimura, como a mãe, oferece uma das representações mais dolorosas e honestas do amor parental: imperfeito, confuso, mas genuíno. A visita dela ao pequeno apartamento de Ai em Tóquio é carregada de palavras não ditas e anos de silêncio, e ainda assim transborda sentimento.

Visualmente, This Is I opta por uma abordagem mais contida. A fotografia privilegia enquadramentos limpos e discretos, muitas vezes posicionando Kenji/Ai ligeiramente deslocada no quadro, como se o próprio espaço ainda não soubesse onde encaixá-la. Já as cenas de performance no cabaré são vibrantes, cheias de cor, música e movimento, criando um contraste forte com a melancolia das sequências anteriores. 

Um ponto que fragiliza a estrutura é a linha do tempo, que por vezes se perde. Os letreiros indicando a passagem dos anos aparecem tardiamente, gerando certa confusão na progressão dos eventos. Além disso, há momentos em que o roteiro sente necessidade de explicar demais o que já foi mostrado com sensibilidade. Em vez de confiar plenamente na força das imagens e das atuações, alguns diálogos explicitam a mensagem de forma direta, quase didática. A sinceridade nunca está em dúvida, mas a insistência ocasional enfraquece o impacto que o silêncio poderia ter alcançado.

Ainda assim, o filme acerta ao não romantizar a transição nem oferecer soluções fáceis. Conflitos institucionais e resistências sociais são apresentados, mesmo que alguns deles se resolvam de maneira um pouco simplificada. A aceitação não é retratada como completa ou universal, ela é parcial, desigual, construída aos poucos e sempre turbulenta dado os anos em que a produção se passa. E, talvez, seja justamente essa honestidade imperfeita que torna a experiência tão humana.

O ato final escolhe a resiliência e emociona, pois, após perdas significativas, inclusive a do Dr. Wada, Ai não é conduzida à tragédia, mas à persistência. Sua ascensão não acontece por milagre, mas por insistência diária. Quando finalmente conquista visibilidade em um palco maior, o momento parece merecido, não espetacularizado. A cena em que ela se apresenta no túmulo de Wada não soa como despedida melodramática, mas como continuidade, como prova de que o apoio que recebeu permanece vivo em suas escolhas.

Confesso que me senti bem emocionada com o filme, chorei durante grande parte da exibição, não apenas pela dor retratada, mas pela esperança que nunca desaparece completamente. Eu não conhecia Haruna Ai antes, mas sua história me comoveu profundamente. Mesmo não sendo uma mulher trans, me identifiquei com a sensação de deslocamento, de querer existir sem pedir desculpas, de lutar por um espaço que muitas vezes parece negado.This Is I exala alegria queer mesmo em meio às dificuldades, e termina em uma nota positiva sem ignorar os problemas da vida.

Não é um filme perfeito, às vezes explica demais, às vezes simplifica conflitos que mereciam maior complexidade e, por vezes, hesita em seu tom. Mas é sincero, é respeitoso e é emocionalmente presente, e isso, em histórias como essa, conta muito. Com isso, mais do que a trajetória de uma celebridade, This Is I é um lembrete de que autenticidade não é um destino final, é uma prática contínua. É sobre ter coragem de permanecer quando o mundo insiste em apagar sua luz. É sobre encontrar pessoas que enxergam você antes mesmo que você consiga se enxergar completamente. É sobre existir e transformar essa existência em arte.

This Is I está disponível na Netflix!

Alice Rodrigues

Estudante de Comunicação social – Jornalismo, e atuando como social media, criadora de conteúdo digital e assessora de imprensa. Além de amar conhecer novas culturas, é viciada em ler e ouvir inúmeros podcast de assuntos variados. Dorameira desde de 2016, adora acompanhar e analisar narrativas e conteúdos que fazem parte da criação de um drama (elenco, filtros usados, fotografia, simbologia das cenas e outros).

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