Dream to You: quando o primeiro amor reencontra os sonhos que ficaram para trás

Dream to You: quando o primeiro amor reencontra os sonhos que ficaram para trás

E se reencontrássemos não apenas a pessoa que amamos no passado, mas também a versão de nós mesmos que deixamos para trás? Será que o futuro a qual somos impostos, quando não segue o modelo que tanto sonhamos significa que temos uma vida ruim? É interessante ver como,  desde sua primeira cena, Dream to You (Sonho até você) conversa não só sobre sonhos, mas também  mostra que , mesmo com as mudanças e percalços da vida, tudo é possível. Não só isso, mas como as pessoas que compartilham a vida conosco enquanto buscamos esse sonho também são marcadas por nossos desejos.

Veja bem, a história apresenta dois jovens na fase adulta que ainda possuem feridas de suas versões de 15 anos, que não só tiveram que abandonar um ao outro de forma cruel, mas que tiveram seus sonhos remexidos, suas expectativas modificadas e suas vidas completamente transformadas por acontecimentos que, naquele momento, eles não tinham capacidade de compreender ou de mudar.

Dream to You acompanha o cineasta Woo Soo Bin (Hwang In Youp) e a apresentadora Joo Yi Jae (Lee Hyeri), dois jovens que se conheceram durante o ensino médio e que, apesar de possuírem personalidades completamente diferentes, acabaram encontrando um no outro uma pessoa capaz de modificar a maneira como enxergavam a própria vida. Yi Jae era uma garota sonhadora, apaixonada por cinema e determinada a fazer filmes, enquanto Soo Bin era um garoto inteligente, gentil e um tanto apático, muito mais acostumado a seguir aquilo que sua família esperava dele do que propriamente aquilo que desejava.

E é justamente aqui que a história começa a ficar interessante, porque o sonho de Yi Jae não pertence somente a ela depois que Soo Bin entra em sua vida. A paixão dela pelo cinema acaba despertando alguma coisa nele, fazendo com que ele também passe a imaginar que talvez pudesse seguir um caminho diferente daquele que havia sido escolhido para ele. Aos poucos, a amizade dos dois se transforma em amor e eles começam a construir uma pequena vida ao redor daquele sonho compartilhado.

Só que, antes que pudessem descobrir até onde aquela relação chegaria, tudo muda. Soo Bin precisa deixar a Coreia e desaparece da vida de Yi Jae justamente quando os dois estavam vivendo um dos momentos mais importantes de suas vidas. Não existe uma despedida adequada, não existe uma explicação que permita que ela compreenda tudo o que aconteceu. Existe apenas a ausência de alguém que, até aquele momento, fazia parte de todos os seus planos. Mas tudo muda quando, quinze anos depois, eles se reencontram, mas não são mais aqueles adolescentes. Soo Bin conseguiu realizar o sonho que um dia foi dela e, depois, deles. Ele se tornou um diretor de cinema reconhecido, enquanto Yi Jae acabou se tornando jornalista e, aos poucos, parece ter perdido aquela paixão que tinha pela vida e pelo cinema.

Mas aqui, o mais interessante é que o reencontro não acontece entre duas pessoas que simplesmente continuam apaixonadas. Acontece entre duas pessoas que carregam ressentimentos, arrependimentos e uma vida inteira que aconteceu depois daquela despedida.

Nesse futuro, a Ju Yi Jae carrega uma versão completamente diferente daquela garota que conhecemos durante sua adolescência. Quando jovem, era apaixonada por cinema, fazia curtas-metragens e acreditava fielmente que conseguiria transformar aquele sonho em sua profissão. Era uma garota cheia de energia, determinada e que não parecia ter medo de insistir naquilo que amava. Porém, depois que Soo Bin desaparece de sua vida e uma série de acontecimentos dolorosos transformam seu caminho, é como se a única coisa que ela tinha fosse tirada dela: a capacidade de sonhar com uma vida diferente, por mais difícil que fosse alcançar aquilo, como se a vida que tinha ali fosse a que ela deveria aceitar e seguir sem reclamações. Na vida como repórter, ela consegue se adaptar às situações, é espirituosa, amigável e possui uma personalidade bastante flexível, mas existe um vazio nela que parece existir justamente porque aquela garota que sonhava tanto ficou perdida em algum momento de sua vida adulta.

E acho que é justamente por isso que a Yi Jae se torna uma personagem tão interessante. Ela não está apenas tentando superar o primeiro amor que a abandonou, mas tentando entender o que aconteceu com ela mesma durante esses quinze anos. Soo Bin voltar para sua vida significa também reencontrar tudo aquilo que ela tentou esquecer: o cinema, os sonhos, a adolescência e a pessoa que acreditava que poderia conquistar qualquer coisa. Por muitas vezes, ela olha para ele e enxerga alguém que conseguiu realizar aquilo que os dois sonhavam juntos, enquanto ela precisou aprender a viver sem aquele futuro. E é impossível não compreender sua mágoa, porque não existe uma despedida capaz de encerrar o relacionamento dos dois. Yi Jae precisa decidir se consegue perdoar Soo Bin, mas, principalmente, precisa descobrir se consegue perdoar a si mesma por ter abandonado seus próprios sonhos.

Enquanto isso, Woo Soo Bin retornou como um diretor de cinema que conseguiu alcançar aquilo que parecia impossível durante sua adolescência. Quando jovem, ele era um estudante extremamente dedicado, inteligente e gentil, mas também alguém que parecia não possuir grandes ambições próprias, principalmente porque sua família já havia decidido qual deveria ser seu futuro. Foi através de Yi Jae e da paixão que ela possuía pelo cinema que Soo Bin começou a enxergar uma possibilidade diferente para sua vida. A amizade entre os dois se transforma em seu primeiro amor e, ao mesmo tempo, no momento em que ele finalmente encontra um sonho que sente que realmente pertence a ele. Depois de deixar Yi Jae e ir para o exterior, ele passa anos perseguindo esse objetivo até se tornar um diretor reconhecido internacionalmente.

Mas o fato de Soo Bin ter conseguido realizar seu sonho não significa que sua trajetória tenha sido simples. Ele carrega consigo as consequências das escolhas que fez e, principalmente, o peso de ter desaparecido da vida da pessoa que mais acreditou nele. Quando retorna para a Coreia e reencontra Yi Jae, não encontra mais a garota que deixou para trás, mas uma mulher que construiu uma vida completamente diferente e que ainda guarda ressentimento por tudo o que aconteceu. Soo Bin é interessante porque representa justamente aquela pessoa que conseguiu alcançar o sonho, mas precisa olhar para trás para perceber quem ficou pelo caminho. Ele não quer apenas recuperar seu primeiro amor, de certa maneira, quer devolver a Yi Jae a capacidade de acreditar novamente em seus próprios sonhos, de perdoar as suas versões antigas e criar um caminho novo muito mais bonito.

Mas a trama não é feita apenas desses dois, porque nessa história de alcançar os sonhos ainda somos apresentados a outros personagens que também possuem suas buscas por sonhos internos e externos, como o Shim Yu Geon (Baek Sung Chul), um ator que está tentando encontrar seu espaço dentro de uma indústria que parece muito maior do que ele. Diferentemente de Soo Bin, que conseguiu alcançar o sonho que possuía desde a juventude, Yu Geon ainda está naquele estágio em que precisa lutar para ser reconhecido e provar que possui capacidade para chegar onde deseja. Ele vem de uma cidade do interior e carrega consigo o sonho de se tornar uma espécie de versão coreana do ator Takeshi Kaneshiro, mostrando que, apesar de ainda não possuir o reconhecimento que gostaria, existe dentro dele uma vontade enorme de crescer e encontrar seu próprio lugar.

E é justamente através de Oh Ha Na (Lee Yul Eum) que Yu Geon começa a enxergar outras possibilidades para sua própria vida. A relação dos dois possui aquela dinâmica gostosa de pessoas que se aproximam enquanto estão tentando descobrir quem realmente são. Yu Geon não é simplesmente o personagem que deseja alcançar a fama, ele também precisa entender o que significa ter um sonho e até onde está disposto a ir para realizá-lo. Ao lado de Ha Na, existe uma troca interessante porque os dois parecem possuir exatamente aquilo que falta ao outro: ele tem um sonho muito claro, mas ainda não conseguiu realizá-lo, enquanto ela alcançou um nível de fama que muitas pessoas desejariam, mas nunca teve a oportunidade de descobrir qual era o seu próprio sonho. 

Oh Ha Na é uma atriz extremamente famosa que cresceu dentro de um ambiente em que a própria vida parece ter sido construída ao redor da fama. Ela possui o reconhecimento, a beleza, o dinheiro e tudo aquilo que normalmente associamos ao sucesso, mas existe uma contradição muito grande dentro de sua personagem: ela conquistou praticamente tudo o que alguém poderia desejar e, ainda assim, não sabe exatamente o que deseja para si mesma. Enquanto Yi Jae representa a pessoa que abandonou um sonho por causa das dificuldades da realidade, Ha Na representa alguém que viveu sob uma realidade tão determinada por outras pessoas que sequer teve espaço para descobrir qual seria o próprio sonho.

É por isso que gosto tanto da forma como Yu Geon entra na vida dela. Ele é alguém que ainda acredita que pode chegar a algum lugar, enquanto Ha Na parece estar presa em uma vida na qual todos já decidiram quem ela deveria ser. Existe uma liberdade muito grande na personalidade de Yu Geon que contrasta com a vida controlada de Ha Na, principalmente pela maneira como ela precisa lidar com as expectativas daqueles ao seu redor e com a imagem que a indústria criou para ela. A relação dos dois acaba sendo mais do que um romance secundário, porque também fala sobre identidade e sobre a diferença entre realizar aquilo que as outras pessoas esperam de nós e descobrir aquilo que realmente queremos. E foi justamente por isso que Ha Na se tornou uma personagem que me surpreendeu tanto ao longo da história.

Além disso ainda temos o Seo In Wook (Lee Sang Yeob), um CEO de uma empresa de produção cinematográfica, alguém que está muito mais próximo do universo profissional que envolve o cinema do que propriamente do sonho inocente que Yi Jae e Soo Bin possuíam durante a adolescência. Ele é um homem adulto, experiente e inserido em um ambiente em que sonhos precisam inevitavelmente conversar com dinheiro, produção, audiência e resultados. E acho interessante que ele esteja justamente ao lado de uma personagem como Chae Sa Rang (Joo Bo Bi), porque os dois apresentam uma relação muito mais madura do que aquela vivida pelos protagonistas.

Chae Sa Rang é uma roteirista de televisão talentosa que, assim como os demais personagens, possui uma relação muito forte com o universo do entretenimento. Porém, enquanto Soo Bin transforma seus sonhos em cinema e Yi Jae passa boa parte da trama tentando reencontrar a paixão que perdeu, Sa Rang está inserida profissionalmente em um ambiente em que precisa transformar ideias em narrativas que outras pessoas vão assistir. Ela representa uma outra maneira de viver através das histórias, porque seu trabalho não está necessariamente relacionado ao sonho romântico de fazer filmes, mas à capacidade de construir personagens, situações e emoções através da escrita.

Sua aproximação com Seo In Wook acontece em uma dinâmica completamente diferente daquela que temos no casal principal. Sa Rang é mais direta em relação ao que deseja e, inclusive, parte para conquistar In Wook com uma segurança que contrasta bastante com as hesitações existentes entre Yi Jae e Soo Bin. E acho interessante que tenham colocado esse casal ao lado do principal justamente para mostrar diferentes formas de relacionamento. Enquanto Yi Jae e Soo Bin precisam olhar para quinze anos de passado para descobrir se ainda existe um futuro para eles, Sa Rang e In Wook começam a construir alguma coisa a partir do presente. Dessa forma, os dois acabam funcionando como uma representação de que o amor não possui apenas uma única maneira de acontecer: ele pode nascer de uma amizade antiga, de um reencontro doloroso ou simplesmente da decisão de duas pessoas adultas de se permitirem viver uma experiência de uma noite.

Se formos analisar, todos os casais que são apresentados no drama possuem essa ideia de se completarem, cada um deles carrega alguma coisa que falta ao outro, não necessariamente porque sejam pessoas incompletas sozinhas, mas porque o encontro entre elas permite que enxerguem partes de si mesmas que estavam escondidas. É como se cada relacionamento funcionasse como um espelho, mostrando aquilo que o outro não conseguia perceber sozinho. Um entrega ao outro aquilo que possui e, ao mesmo tempo, recebe aquilo que precisava para seguir em frente.

E a relação entre a Yi Jae e o Soo Bin talvez sejam o maior exemplo disso, porque eles compartilham desde a adolescência um sonho que acabou tomando caminhos completamente diferentes. Ela ensinou a ele a sonhar, enquanto ele, anos depois, tenta ensiná-la a sonhar novamente. Yu Geon e Ha Na também seguem essa lógica, mas de uma maneira diferente, enquanto ele possui um sonho muito claro, mas ainda não alcançou o lugar que deseja, ela chegou ao lugar que todos considerariam perfeito, mas sequer sabe se aquilo era o que queria. Já Sa Rang e In Wook apresentam uma relação mais madura, em que o encontro entre os dois não acontece pela necessidade de recuperar algo perdido, mas pela possibilidade de construir algo novo. São relações diferentes, com histórias diferentes, mas todas parecem partir da mesma pergunta sobre: o que podemos encontrar em outra pessoa que nos ajude a compreender melhor quem somos?

E talvez seja justamente por isso que Dream to You consiga falar tanto sobre sonhos sem transformar tudo em uma discussão exclusivamente sobre carreira ou sucesso. Os sonhos aqui também são as pessoas, os relacionamentos, as versões de nós mesmos que gostaríamos de recuperar e até mesmo as vidas que imaginamos que teríamos. Cada personagem parece estar perseguindo alguma coisa, mesmo quando não consegue nomear exatamente o que é. Yi Jae quer recuperar uma parte de si, Soo Bin quer reparar aquilo que ficou para trás, Yu Geon quer alcançar o reconhecimento que acredita merecer, Ha Na precisa descobrir o que realmente deseja e Sa Rang e In Wook começam a perceber que também é possível encontrar novos caminhos quando permitimos que outra pessoa entre em nossa vida.

E acho bonito que o drama não trate essa complementaridade como se uma pessoa fosse responsável por salvar a outra. Eles não deixam de possuir seus próprios problemas simplesmente porque encontraram alguém. O que acontece é que, através dessas relações, eles encontram coragem para olhar para aquilo que sozinhos talvez continuassem evitando. Talvez seja isso que o amor representa em Dream to You, não alguém que completa aquilo que somos, mas alguém que nos ajuda a enxergar as partes que ainda precisamos descobrir.

E essa ideia conversa diretamente com aquilo que o drama apresenta desde o começo, de que os sonhos podem mudar, mas isso não significa que deixamos de sonhar. Às vezes, o sonho que tínhamos aos quinze anos não é o mesmo que teremos aos trinta. Algumas pessoas que imaginávamos que permaneceriam para sempre vão embora, outras chegam inesperadamente e algumas relações que pareciam destinadas ao fracasso acabam nos mostrando uma versão diferente da vida. No fim, talvez, crescer seja justamente entender que não precisamos continuar vivendo de acordo com o roteiro que escrevemos quando éramos jovens. Podemos mudar a história. Podemos encontrar novos sonhos. E, quem sabe, podemos até reencontrar aqueles que acreditávamos ter perdido para sempre.

Mas existe uma parte da história que, para mim, é impossível ignorar quando pensamos em tudo isso, a família e a forma como ela influencia os sonhos que eles possuem. Dream to You não apresenta os sonhos como algo completamente livre, que nasce dentro de cada pessoa e pode ser perseguido sem nenhuma interferência externa. Pelo contrário, muitas vezes são justamente as pessoas que deveriam nos incentivar que acabam determinando o caminho que devemos seguir, e isso faz com que alguns personagens passem boa parte da vida tentando descobrir se aquilo que desejam realmente pertence a eles.

Isso fica muito evidente principalmente através de Soo Bin que desde cedo cresceu em um ambiente em que seu futuro parecia já estar decidido, e a relação com seu pai é fundamental para entendermos por que ele era tão apático durante a adolescência. Ele não era uma pessoa sem capacidade de sonhar, ele simplesmente não teve espaço para descobrir o que queria antes que outras pessoas decidissem por ele. A pressão e o trauma familiar fez com que ele enxergasse o próprio futuro como uma obrigação, e não como uma escolha. Por isso, quando Yi Jae entra em sua vida e começa a falar sobre cinema, fazer filmes e perseguir aquilo que ama, ela não está apenas apresentando uma nova paixão para ele, mas mostrando pela primeira vez que talvez exista uma vida que possa ser escolhida por ele mesmo.

E acho que essa é uma das coisas mais bonitas na relação dos dois, porque Yi Jae não dá apenas um sonho para Soo Bin, ela dá a ele a possibilidade de desejar. Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas porque um sonho pode ser uma profissão, um objetivo ou uma conquista, mas desejar alguma coisa significa reconhecer que existe dentro de nós uma vontade que merece ser ouvida. Soo Bin passa a enxergar o cinema dessa maneira e, consequentemente, começa a construir uma identidade que não depende exclusivamente daquilo que sua família esperava dele.

Mas, ao mesmo tempo, a família também deixa marcas em Yi Jae. Ela possui seus próprios traumas e acontecimentos que acabam modificando completamente a maneira como enxerga a vida adulta. Aquela garota que acreditava que poderia fazer filmes e transformar seus sonhos em realidade vai desaparecendo aos poucos, não porque deixou de gostar daquilo, mas porque a realidade foi se tornando pesada demais para que ela continuasse acreditando. E isso é muito doloroso porque, em determinados momentos, parece que ela não perdeu apenas uma profissão que gostaria de ter, mas perdeu a capacidade de imaginar uma vida diferente.

É justamente por isso que o reencontro com Soo Bin possui um significado tão grande. Ele não retorna apenas como seu primeiro amor, mas como uma lembrança viva da pessoa que ela era. Toda vez que Yi Jae olha para Soo Bin, existe também uma parte dela olhando para aquela adolescente que fazia filmes, acreditava no futuro e não tinha medo de sonhar. E talvez seja por isso que o ressentimento dela seja tão forte. Não é apenas sobre ele ter ido embora. É sobre tudo aquilo que sua partida passou a representar na vida dela.

A questão familiar também aparece de maneiras diferentes nos outros personagens. Ha Na, por exemplo, cresceu dentro de um ambiente em que sua própria imagem e sua carreira parecem ter sido construídas antes mesmo que ela tivesse a oportunidade de descobrir quem gostaria de ser. Ela possui fama, dinheiro e reconhecimento, mas isso não significa que tenha tido liberdade. Existe uma diferença muito grande entre ter tudo aquilo que as pessoas desejam e ter a possibilidade de escolher aquilo que realmente desejamos para nós mesmos. Durante boa parte da história, ela pode parecer apenas uma atriz famosa cercada de privilégios, mas, conforme conhecemos melhor sua realidade, percebemos que existe uma pessoa tentando descobrir o que existe por trás da imagem que construíram para ela. Enquanto Yi Jae perdeu seu sonho porque a vida foi difícil demais, Ha Na quase não teve a oportunidade de descobrir qual era o seu sonho porque outras pessoas já haviam escolhido tudo por ela.

Yu Geon também possui uma relação diferente com essa ideia de expectativa. Ele vem de uma realidade muito mais simples e possui um objetivo bastante específico de querer se tornar um ator reconhecido. Pode parecer um sonho superficial quando colocado ao lado de tudo o que Yi Jae e Soo Bin viveram, mas não acho que seja. Para Yu Geon, ser reconhecido significa provar para si mesmo que é capaz de chegar a algum lugar. Ele ainda está construindo sua trajetória e precisa lidar constantemente com a sensação de que existem milhares de pessoas mais talentosas, mais conhecidas e mais preparadas do que ele. E justamente por ainda estar buscando seu espaço, ele acaba funcionando como um contraste muito bonito com Soo Bin. Soo Bin é o personagem que conseguiu chegar ao lugar que sonhava, enquanto Yu Geon ainda está correndo atrás desse lugar. Um sabe como é realizar um sonho, o outro sabe como é desejar desesperadamente que ele aconteça. E Ha Na fica exatamente no meio desses dois extremos, porque alcançou um sucesso que talvez nunca tenha escolhido conscientemente.

Mas quando o drama coloca todos esses personagens lado a lado, acredito que ele esteja fazendo uma reflexão muito maior sobre aquilo que significa crescer. Quando somos jovens, acreditamos que nossa vida precisa seguir exatamente o caminho que imaginamos. Temos uma profissão dos sonhos, uma pessoa que queremos ao nosso lado, lugares onde queremos chegar e uma ideia bastante específica de quem seremos no futuro. Só que a vida não respeita nossos roteiros.

Yi Jae não se tornou cineasta. Soo Bin precisou abandonar tudo o que conhecia para conseguir seguir seu próprio caminho. Ha Na se tornou famosa antes mesmo de descobrir o que queria. Yu Geon ainda está tentando chegar ao lugar que deseja. Sa Rang encontrou seu espaço escrevendo histórias, enquanto In Wook construiu uma carreira em um ambiente onde sonhos e realidade precisam caminhar juntos. Nenhum deles possui exatamente a vida que imaginou quando era mais jovem, mas isso não significa que suas vidas sejam fracassadas. E talvez essa seja uma das mensagens que mais gostei na produção, a ideia de que um sonho perdido não significa uma vida perdida. Às vezes, precisamos abandonar aquilo que imaginávamos para descobrir que existe outra possibilidade. Às vezes, precisamos perder alguém para entender o quanto aquela pessoa significava. Às vezes, precisamos nos afastar daquilo que éramos para finalmente descobrir quem somos.

Só que o drama também mostra que existem situações que não conseguimos controlar. Nem todo sonho depende apenas de esforço, e nem toda história pode ser consertada simplesmente porque queremos muito que ela tenha outro final. Existem escolhas feitas por outras pessoas, acidentes, perdas, famílias, circunstâncias e acontecimentos que estão completamente fora do nosso alcance. E acho importante que a produção reconheça isso, porque seria muito fácil transformar sua mensagem em algo extremamente simplista, como se bastasse acreditar para conseguir tudo.

Não é assim. Às vezes acreditamos e mesmo assim perdemos. Às vezes fazemos tudo certo e ainda assim a vida muda nossos planos. E talvez amadurecer seja justamente aprender a lidar com essa ausência de controle sem deixar que ela destrua completamente nossa capacidade de sonhar. É por isso que, para mim, o reencontro entre Yi Jae e Soo Bin funciona tão bem como centro da história. Eles não estão simplesmente tentando recuperar um amor adolescente. Estão tentando descobrir se existe uma maneira de seguir em frente sem precisar apagar aquilo que aconteceu. Soo Bin precisa assumir as consequências de ter desaparecido, Yi Jae precisa decidir se consegue perdoá-lo. Mas, acima de tudo, os dois precisam descobrir se conseguem perdoar as pessoas que eram quinze anos atrás.

E talvez seja esse o verdadeiro significado desse k-drama, não é sobre voltar ao passado para viver exatamente aquilo que perdemos, mas sobre voltar ao passado, olhar para ele e finalmente conseguir seguir em frente. O primeiro amor pode permanecer como uma lembrança, os sonhos podem mudar, as pessoas podem crescer e a vida pode tomar caminhos completamente inesperados. Ainda assim, isso não significa que a história terminou. Porque, talvez, o maior sonho de todos seja justamente o ato de ter coragem para continuar sonhando mesmo depois de descobrir que a vida não vai acontecer da maneira que imaginávamos.

Dream to You está disponível no Viki!

Alice Rodrigues

Graduada em Comunicação social – Jornalismo, e atuando como social media, criadora de conteúdo digital e assessora de imprensa. Além de amar conhecer novas culturas, é viciada em ler e ouvir inúmeros podcast de assuntos variados. Dorameira desde de 2016, adora acompanhar e analisar narrativas e conteúdos que fazem parte da criação de um drama (elenco, filtros usados, fotografia, simbologia das cenas e outros).

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