Extraordinary You: Vale a pena assistir ao queridinho da metalinguagem?

Extraordinary You: Vale a pena assistir ao queridinho da metalinguagem?

Depois de anos acompanhando os clichês consolidados dos dramas escolares, em 2019 o público foi pego de surpresa com a estreia de Extraordinary You. A promessa era ousada: e se os personagens de um manhwa (história em quadrinhos coreana) descobrissem que não têm controle sobre suas próprias vidas? 

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O drama despertou curiosidade imediata ao colocar jovens atores com pouca experiência como protagonistas – como Kim Hye Yoon e o, na época idol, Rowoon – para carregar uma trama complexa de autoconsciência e destino. Mas fica a pergunta: será que a série conseguiu sustentar sua premissa inovadora até o fim ou se perdeu nos próprios quadrinhos?

Vamos conversar!

Uma história de figurantes em busca de protagonismo

Eun Dan Oh é uma estudante rica e carismática que descobre o pior pesadelo de qualquer adolescente: ela não é a protagonista de sua vida, mas sim uma figurante com uma doença terminal em um mangá chamado “Segredo”. Ao perceber que suas ações são ditadas pelo “Escritor”, ela decide se rebelar contra o roteiro.

Sua jornada ganha força quando ela encontra o “Número 13”, um personagem sem nome e sem falas que parece ser o único capaz de mudar o curso das cenas. Juntos, eles tentam encontrar uma saída para viverem um amor real fora das páginas pré-determinadas. A pergunta que dirige tudo: é possível mudar um destino que já foi desenhado?

Onde o drama tropeça…

1. O ciclo repetitivo de buscas e amnésias

A narrativa, que começou ágil, caiu em um looping cansativo na segunda metade. O esquema de “perda de memória” foi usado repetidas vezes para gerar conflito, o que tirou o impacto emocional. O que poderia ter sido uma discussão profunda sobre livre-arbítrio acabou se tornando uma sucessão de cenas onde a protagonista apenas grita por “Haru!” repetidamente, tornando a experiência cansativa.

2. Furos no roteiro e falta de explicações

Embora a premissa fantástica fosse instigante, o drama falhou em estabelecer suas próprias regras. Questões fundamentais como “Quem é o autor?”, “Como esse mundo surgiu?” ou “Por que alguns personagens despertam e outros não?” ficaram sem resposta. O roteiro preferiu focar em triângulos amorosos arrastados em vez de explorar a mitologia fascinante que criou.

Por exemplo, o dorama introduz elementos instigantes, como o buraco negro na biblioteca e a conexão com dramas passados do mesmo autor, mas nunca explica as regras desse universo. Por que alguns objetos cruzam as cenas e outros não? Por que a “Sombra” às vezes interfere no “Palco”? Essa falta de critérios claros faz com que muitas resoluções pareçam apenas “conveniência de roteiro” para tirar os protagonistas de enrascadas, testando a paciência do espectador.

3.  Unidimensionalidade dos personagens

O grande atrativo era a força de Dan Oh, mas ela acabou sendo reduzida a uma “colegial apaixonada” que prioriza o romance em detrimento da própria vida e saúde. Haru, que começou misterioso, tornou-se um personagem cujo objetivo era somente salvar a protagonista. Já o triângulo com Baek Kyung foi arrastado por vários episódios com cenas idênticas, sem progressão real.

4.Final apressado e insatisfatório

Após dar muitas voltas no meio da história, os episódios finais correram para encerrar as tramas de forma conveniente. Muitas perguntas importantes foram ignoradas e o desfecho deixou uma sensação de que o potencial gigante da primeira metade foi desperdiçado em prol de um final agridoce e confuso.

5. A perda do tom sátiro para dar lugar ao melodrama arrastado

O que começou como uma paródia inteligente e ácida dos clichês de k-dramas acabou se tornando exatamente aquilo que criticava. Na segunda metade, a série abandonou o tom satírico para abraçar um melodrama pesado e arrastado. Essa mudança brusca de identidade fez com que o espectador que buscava originalidade se sentisse preso em um romance colegial comum, perdendo o “frescor” que a premissa prometia e que passa a ser recheado de clichês. Além disso, para respaldar esse melodrama arrastado que o drama se torna, o enredo usa de forma excessiva, repetitiva e mal introduzida os flashbacks do passado que fazem com que a narrativa se torne cansativa.

6. Subtramas secundárias subaproveitadas

Houve um desperdício de potencial com o elenco de apoio. A história de Do Hwa e Joo Da (o outro triângulo amoroso) era extremamente carismática, mas foi deixada de lado para dar voltas no conflito principal. Personagens intrigantes, como o irmão de Kyung ou a “Fada da Lula Seca”, tiveram suas motivações e mistérios explicados de forma superficial, servindo apenas como alavancas dramáticas convenientes.

O que o drama tem de especial?

1. A química orgânica de todo o elenco 

Um dos grandes charmes da série é a química, não apenas entre o casal principal, mas entre todos os jovens atores. As cenas de bastidores e os momentos de interação coletiva na escola passam uma sensação de amizade genuína ( e os atores são mesmo amigos até os dias atuais). Essa liga emocional faz com que o espectador se apegue ao universo e queira continuar assistindo, mesmo quando a trama fica lenta, apenas para passar mais tempo com aquele grupo de personagens.

2. A premissa única de sátira aos clichês

O conceito de satirizar dramas como Boys Over Flowers através do grupo “A3” é brilhante. Ver os personagens rindo do quão ridículas e bregas são suas próprias falas “escritas” traz um frescor e um humor ácido que raramente se vê em romances escolares.

3. Momentos de metalinguagem inspiradores

Os momentos em que os personagens quebram a “quarta parede” e zombam do roteirista são o ponto alto da obra. Ver a protagonista tentando estragar as cenas clichês de propósito é recompensador e traz uma dinâmica de “comédia de erros” que é muito difícil de executar bem. Quando o roteiro permite esse brilho, o dorama se torna uma das experiências mais criativas do gênero escolar. E arranca muitas risadas de quem assiste.

4. A representação da crise existencial de forma acessível

Embora seja um drama escolar, o K-drama toca em temas filosóficos profundos: “Quem sou eu quando ninguém está olhando?”, “Minhas escolhas são realmente minhas?”. Tratar de determinismo e livre-arbítrio dentro de uma estética colorida e juvenil foi uma escolha corajosa que permitiu que o público jovem refletisse sobre autonomia de uma forma leve e envolvente.

5. O romance “DanHaru” e a química da pureza

A história de amor entre Dan Oh e Haru, que se recusa a seguir o roteiro imposto, mesmo com as falhas, é extremamente fofa. É um romance construído na base da cumplicidade e da luta mútua pela liberdade. A química eletrizante entre Kim Hye Yoon e Rowoon torna cada olhar, cada toque e cada sacrifício um momento especial, fazendo o público torcer intensamente para que eles possam reescrever seu próprio final feliz. É um amor que representa a coragem de escolher, mesmo quando o mundo tenta ditar o seu caminho.

6. A quebra da masculinidade tóxica no gênero escolar

O drama brilha ao colocar Haru e Do Hwa como contrapontos ao comportamento agressivo de Baek Kyung e Nam Joo. Enquanto os “protagonistas do mangá” são frios e possessivos, Haru é a personificação da gentileza e do apoio, sendo um personagem especial e fofo. Ver um protagonista masculino que não precisa gritar ou impor sua vontade para ser marcante é revigorante. Esse contraste serve como uma crítica direta aos romances antigos que romantizam o abuso, mostrando que o verdadeiro “herói” é aquele que respeita a autonomia da parceira.

E o veredito é…

Por um lado, Extraordinary You vale a pena pela sua originalidade e pelas atuações brilhantes do trio principal. Se você busca algo que fuja do óbvio e gosta de metalinguagem, os primeiros episódios são “ouro puro”. No entanto, esteja preparado para uma queda de ritmo considerável e um roteiro que se perde em clichês que ele mesmo tentou criticar. Para quem não tem paciência com a mudança de tom ou para quem busca somente uma comédia feliz sem complicações, certamente não é o drama. 

De um ponto de vista mais pessoal e parcial, o saldo de Extraordinary You para mim foi muito mais negativo do que positivo, já que foi cansativo e demorado para terminar a segunda metade da história.

Enfim, o que quero dizer é: não chega a ser perfeito, mas é um marco nos dramas escolares pelo seu conceito. Assista pela química entre os atores e pela mensagem de que temos o poder de assumir o controle de nossas vidas, mas saiba que, se você busca um roteiro sem furos e um final fechadinho, pode terminar a maratona um pouco frustrado.

Extraordinary You está disponível para ser assistido no Viki!

Brenda Mendes

Historiadora, professora e criadora de conteúdo digital, está sempre em busca de uma nova história para desbravar e aquecer seu coração, apaixonada por doramas de romance e slice of life, é uma leitora ávida há mais de 10 anos.

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